quarta-feira, 19 de maio de 2010

19/5/1895 - Morte, em combate, de Martí

DE CARA PARA O SOL


JOSÉ ARREOLA - Mexico


JOSÉ MARTÍ

Cavalgarás em contra ordem, na primeira linha. O perigo, a ousadia, os desejos, a luz eterna te chamarão. Cairás do cavalo, por um golpe estranho, desconhecido até então. Deitado de costas, de cara para o sol, sentirás que te transformas em outros, mas sempre sendo tu mesmo. Ao perceber o sol, ao sentir seus raios no rosto, tentarás sorrir para ele. Sentirás uma breve dor, uma dor aguda, uma dor sonora, penetrando como rajada de vento em tua carne. Saberás que és tu aquele que assalta o quartel Moncada, que és tu aquele que reprime o grito quando lhe arrancam os olhos. Ver-te-ás viajando a outro país, em casas de segurança, buscando armas, fazendo preparativos para a liberdade. Sentirás o necessário temor, ao desembarcar em tua pátria, quando te receberem as balas do tirano, destruindo quase por completo a expedição. Apenas teu senso de orientação te salvará. O calor e a umidade da serra não te deixarão em paz, as botas te pesarão, a lama te chegará até o peito. A sede, a maldita sede, te secará a boca, mas não te impedirá de saborear a vitória junto aos teus, quando declarares que ganharam o direito de começar. Encherás de heroísmo teus pulmões, em Girón.

Ainda que a dispneia te impeça de respirar, ainda que sintas essas contrações no peito, teus sonhos te levarão até a Bolívia. Sentirás o fogo de uma bala na perna, cuspirás num oficial que quer humilhar-te, depois permanecerás imóvel, como num sonho, sem sentir mas sentindo, com teu rosto angelical. Chorarás quando a morte te beijar a barba e a asma. O calor te sufocará, nem sequer as palmas frescas te aliviarão. Tudo é um segundo, tudo te parecerá uma eternidade. Deitado, contemplando o céu, descobrirás verdades nele e nas folhas das árvores. Ouvirás, à distância, a entrada dos tanques em La Moneda, os disparos, os insultos, a última mensagem de um bom homem; te escarnecerão, serás morto novamente no estádio, junto a milhares de outros. O suor te correrá pela testa. Desejarás gritar e levantar-te, andar a cavalo, cavalgar o infinito, afogar as penas e a angústia, acabar com a tortura; desejarás matar para poder viver. Serás um desaparecido; as Avós, as Mães da Praça de Maio te procurarão. E rirás, de tão feliz, quando te encontrarem. Chorarás inexoravelmente. Teus olhos se nublarão pouco a pouco, sem chance de mais nada. O ar se extinguirá, por mais que tentes aspirá-lo. Todas as dores de tua terra se alojarão em teu peito, em tua perna, em teus braços, em teus olhos, em tua angústia, em tua ausência. Sentirás como a garganta do ser rude em que viveste quase engole esse pedaço do mundo, essa bela ilha. Sentirás que tornas a nascer, a viver, a lutar, a vencer, embora já quase não respires, embora teus olhos se turvem.

O calor, a sede, o cansaço se extinguirão. Não mais terás dor, nem nada. Teus músculos relaxarão sob o uniforme de guerrilheiro, que com tanto afinco e sacrifício ganhaste. Restarão o casaco e os óculos em tua mochila inseparável, junto ao teu confidente diário de campanha. O sangue brotará desse orifício feito pela bala, regará a terra, dar-lhe-á vida. Tudo escurecerá. O fuzil cairá, te acompanhando, repousará junto a teu flanco esquerdo. Saberás que o mundo acaba para ti. Que a escuridão te engolirá. Que a terra te quer para semente. Contemplarás o infinito; nele verás o que sonhaste e pelo que lutaste. Verás os teus rompendo os grilhões. Ouvirás a Venezuela gritando “ianques de merda!”; e a Bolívia indígena levantar-se, encher-se de júbilo e verdade; e o Equador decidindo seu destino. Teus olhos verão a América mestiça sendo ela própria, livre, independente, soberana. Ninguém, José, ninguém entenderá por que, agora que a bala está te matando, desenha-se em ti um sorriso. Ninguém, Martí, ninguém entenderá por que vais alegre, apesar de tudo. Ninguém, José, ninguém entenderá por que vais sereno, belo. Ninguém entenderá que morres para começar a viver, eternamente, com os pobres da terra. Ninguém entenderá que vais feliz, porque desde Dos Ríos, momentos antes da morte, tu, José, tu, Martí, sabias que seríamos livres para sempre. Por isso, tu, José Martí, exalas neste 19 de maio de 1895 o último e feliz suspiro, de cara para o sol, tal como sonhaste.

(Tradução literária de Yara Camillo)

O amor à Pátria, mãe,
Não é o mero amor à terra,
Nem à erva que pisam nossos pés.
É o ódio invencível a quem a oprime,

O rancor eterno a quem a ataca.


JOSÉ MARTÍ – Cuba : 1853 -1895





19 DE MAIO /2010


115 ANOS DA MORTE EM COMBATE


DE JOSÉ MARTÍ -


HERÓI NACIONAL DE CUBA



Texto publicado na AGENDA LATINO-AMERICANA- Página 234

ANO 2010

Um comentário:

  1. Здарова админ ! Ты че себе тизерку не поставиш ? Деньги приносит. Я сам поставил хост хоть оплачивает.
    вот смотри мой сайт http://adult.pornokontact.ru/
    вот сама партнерка http://url.servermusic.ru/index.php?jj9OKTcYJM
    ну и вторая партнерка http://url.servermusic.ru/index.php?7jVPJzDV0Y

    обе они самые лучшие в инете. я с ними блог свой и раскручивал. людей стало в разы больше ! :)
    если что пиши на почту отвечу !

    ResponderExcluir