terça-feira, 29 de março de 2011

ELAM - Carta aberta ao povo brasileiro

Em defesa do SUS, estudantes de medicina em Cuba realizam 2º Encontro Nacional

Nos dias 25, 26 e 27, foi realizado 2º Encontro Nacional dos Estudantes Brasileiros de Medicina em Cuba, no Acampamento Internacional “Julio Antonio Mella” (Cijam), no Município Caimito, Província Artemisa. O evento contou com a participação de 130 delegados eleitos entre os quase 600 estudantes brasileiros. Com o objetivo de debater assuntos internos da organização, a solidariedade a Cuba e a inserção dos egressos da Escola Latino-Americana de Medicina (Elam), de Havana, ao Sistema Único de Saúde (SUS) do Brasil.

A abertura do evento contou com a presença do reitor da Elam, doutor Juan Carrizo Estevez; do primeiro-secretário da Embaixada do Brasil em Cuba, Túlio Amaral Kafuri; do professor doutor Marco Aurélio da Ros (UFSC); da professora Maria Auxiliadora Cesar, coordenadora do Núcleo de Estudos Cubanos da UnB; do presidente da Organização Continental Latino-Americana e Caribenha de Estudantes (Oclae), Yeovani Chachaval; dos diretores de Atenção ao Brasil e Atenção a Estudantes Estrangeiros do Instituto Cubano de Amizade com os Povos (Icap), Fabio Simeón e Bárbara Diaz; e da representação do Cijam.

Na abertura, os estudantes apresentaram uma Moção de Solidariedade a Cuba, exigindo a libertação imediata de Ramón, Gerardo, René, Fernando e Antônio, os Cinco lutadores antiterroristas cubanos presos nos EUA, o fim do bloqueio a Cuba, o fechamento da Base de Guantânamo e que cessem as agressões imperialistas a Líbia.

No sábado, dia 26, o professor doutor Marco Aurélio da Ros participou de um frutífero encontro com os estudantes, no qual se debateu o tema “Reforma Sanitária no Brasil, passado, presente e perspectivas”. Os trabalhos seguiram pela tarde em grupos temáticos sobre: solidariedade a Cuba, reforma sanitária, extensão universitária (o papel das Brigadas Estudantis de Saúde), a inserção na Associação Médica Nacional Maria Fachini e a revalidação dos diplomas no Brasil.

No domingo, dia 27, os estudantes debateram com a professora Maria Auxiliadora (Nescuba) e com o companheiro Fabio do Icap a história do movimento de solidariedade a Cuba no Brasil.

Os trabalhos se encerraram com a aprovação do novo estatuto da Associação dos Brasileiros Estudantes de Medicina em Cuba (Abemec) e com a aprovação de uma “Carta aberta ao povo brasileiro”.

Carta aberta ao povo brasileiro

Em 1998, quando os furacões George e Mitch provocaram grandes destruições na América Central, suplantando a capacidade de resposta civil e governamental aos desastres naturais, o governo cubano decidiu fundar uma escola internacional para a formação de médicos, 100% pública, 100% gratuita, aos jovens dos países periféricos, com o objetivo de atender aos excluídos dos sistemas de saúde precarizados e privatizados. Um ano depois se cria a Escola Latino-Americana de Medicina (ELAM).

A partir da próxima graduação seremos mais de 10 mil médicos, oriundos de 116 países de Ásia, África, Oceania e América, formados por esse projeto. Até o momento os médicos formados pela Elam estão participando de importantes projetos sociais em inúmeros países das Américas.

No Haiti existe uma cooperação tripartite entre os governos de Cuba-Brasil-Haiti, onde mais de 680 médicos formados em Cuba, trabalham atendendo gratuitamente ao povo haitiano, atingido pelo terremoto mais forte conhecido pela história contemporânea do continente e que agora sofre uma importante epidemia de cólera.

No Equador, jovens formados em Cuba participam de uma missão governamental chamada “Manuela Espejo”, estão fazendo o levantamento em todos os rincões desse país das pessoas com deficiência física e mental, levando assistência médica integral a todo o interior equatoriano.

Na Venezuela, jovens formados pela Elam participam de um projeto governamental chamado “Batalhão 51”, em homenagem aos primeiros 51 venezuelanos formados pela Elam, que atende a populações ao longo da Amazônia venezuelana e outras regiões afastadas desse país.

Poderíamos citar exemplos do trabalho dos médicos latinos formados em Cuba, na Nicarágua, México, Honduras, Guatemala, Peru, Bolívia e em muitos outros países das Américas.

E no Brasil, país mais rico da América Latina, que possui mais de 568 municípios sem nenhum médico e mais de 1.500 sem médico fixo, onde crianças morrem por enfermidades infecciosas, desidratação e outras enfermidades previníveis, facilmente tratáveis se atendidas prontamente, no qual a mortalidade infantil está em torno de 20 por mil nascidos vivos, sendo que no nordeste, por exemplo, chega a 34,4 por mil nascidos vivos, muito diferente de Cuba com 4,5 por mil. Além disso, são milhares os pacientes da terceira idade, portadores de doenças crônicas não transmissíveis, como a Hipertensão Arterial e a Diabetes, sem atenção médica devida. A inserção dos estudantes formados em Cuba e em outros países no Brasil tem sido dificultada por barreiras corporativas de setores reacionários e mentirosos, que até hoje não assumiram a responsabilidade de levar o direito à saúde a todo o povo brasileiro.

A medicina no Brasil hoje é controlada pelo complexo médico-industrial: “empresários da saúde”, corporações farmacêuticas e de tecnologia médica que influenciam a formação médica, de forma que nossos médicos são educados a interpretar “exames complementares”, sem tocar nem olhar o paciente, sem entrevistá-lo, nem menos dedicar-lhe atenção psicosocial. A medicina brasileira está mercantilizada e desumanizada.

Nós, estudantes da Escola Latino-Americana de Medicina, vimos a público colocar-nos à disposição da sociedade e dos poderes públicos de todos os níveis da federação para a realização de um Plano Integral de Inserção ao Sistema Único de Saúde (SUS), que permita a inserção de médicos formados no Brasil e no exterior, dispostos a levar o acesso à saúde e qualidade de vida às famílias hoje excluídas da assistência médica.

O Sistema Único de Saúde é a bandeira mais ousada que o movimento popular brasileiro construiu com muita luta e articulação no século passado. Desde a sua aprovação na constituição cidadã e da incompleta regulamentação posterior, tem sofrido ataques constantes que ameaçam destruir e descaracterizar o maior sistema de cobertura médica do mundo. Por conta do reconhecimento das patentes internacionais sobre os medicamentos, a demora para aprovação da Emenda Constitucional 29, a derrubada da CPMF, a legalização das fundações e a entrega do serviço de saúde às operadoras de serviço, o SUS necessita cada vez más ser defendido e tornar-se uma realidade.

O Brasil, que possuí um desenho formal do sistema de saúde mais completo que outros países da região, gasta menos per capita que países vizinhos como Argentina e Chile.

Nós, estudantes de medicina da Escola Latino-Americana de Medicina, reunidos em nosso 2º Encontro Nacional em Cuba, vimos a público manifestar nosso compromisso de tornar o Sistema Único de Saúde uma realidade para o povo brasileiro. Convidamos a sociedade para juntar-se a nós na defesa de um SUS verdadeiramente para todos.

27 de março de 2011.

Caimito, Província Artemisa, Cuba.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Por Lenny

Leonard Weinglass

Por Ricardo Alarcón de Quesada.
Na tarde de 23 de março, no mesmo dia que cumpria 78 anos de uma vida exemplar, o coração de Leonard Weinglass parou de bater.
Ele sofria de uma terrível doença que, desde janeiro, havia entrado em uma fase crítica e especialmente dolorosa, mas não o tirou um momento do trabalho. Durante os últimos meses, heroicamente enfrentando a doença e as dores, ele se dedicou de corpo e alma para a preparação e apresentação de habeas corpus em nome de Gerardo Hernández e Antonio Guerrero, sem esquecer os outros companheiros.
Pouco antes de entrar no hospital onde ele estava para ser operado com a máxima urgência, deu os últimos passos para o recurso de Gerardo e Antonio e explicou aos seus colegas o que deveriam fazer enquanto estivesse afastado. Aí, então, concordou em cuidar de si mesmo.
Sempre foi assim. Desde jovem quando ingressou na empresa liderada por Victor Rabinowitz e Boudin Leonard, travando inúmeras batalhas jurídicas pelos sindicatos, pelas liberdades civis e pela justiça nos EUA. Com sua brilhante defesa em 1968 dos Oito de Chicago, Lenny começou uma ininterrupta e marcante carreira, que incluiu os casos de Jane Fonda, Daniel Ellsberg e os documentos do Pentágono, Angela Davis, Mumia Abu Jamal, Amy Carter, Kathy Boudin e muitos outros até os Cinco antiterroristas cubanos e sua mais recente colaboração com os advogados de Julian Assange, fundador do Wikileaks. Não é possível escrever a história das lutas do povo estadunidense, sem destacar, em cada página, o nome de Leonard Weinglass.
Para ele, agora e sempre, nossa homenagem e nossa gratidão.
A perda de Lenny é um duro golpe em Gerardo, Ramón, Antonio, Fernando e René. Ele foi o melhor advogado e mais incansável, nesse caso, dedicou toda a sua energia e talento, por eles lutou até o fim, em meio ao sofrimento e agonia até o último suspiro.
A luta pela libertação dos nossos companheiros deve continuar, agora em condições mais difíceis, sem Lenny. Vamos renovar nosso compromisso de continuar até que todos recuperem a liberdade. Vamos fazê-lo sem trégua nem descanso. É o mínimo que podemos fazer ao lutador incansável, ao combatente abnegado e lúcido que sempre foi nosso querido companheiro Leonard Weinglass.

Assista: Fragmento de entrevista transmitida pela TELESUR

Fonte: http://www.cubadebate.cu/opinion/2011/03/24/por-lenny/

quinta-feira, 17 de março de 2011

SP - Os Cinco: debate em São Paulo

O debate sobre “O cerco midiático contra Cuba”, na terça-feira, dia 15, no Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, foi além da denúncia. Ao lado do cônsul geral de Cuba no Brasil, Lázaro Mendez, os jornalistas Mário Augusto Jakobskind e Fernando Morais relataram detalhes de seus mais recentes livros-reportagens — ambos a respeito da ilha caribenha. O evento foi promovido pelo Centro de Estudos da Mídia Barão de Itararé, em parceira com o Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (Cebrapaz), o sítio Opera Mundi e o Comitê dos Cinco Patriotas Cubanos.

Jakobskind é autor de Apesar do Bloqueio — Um Repórter Carioca em Cuba, lançado em 1984, após a primeira visita do jornalista a Havana e dos 25 anos da Revolução Cubana. Passaram-se 26 anos, ele refez a viagem e decidiu reeditar o livro, com devidos acréscimos e necessárias atualizações. A iniciativa resultou em Cuba: Apesar do Bloqueio (Book Link, 2010), que teve noite de autógrafos após o debate no sindicato.

“Estive pela primeira vez em Cuba nos estertores da ditadura brasileira”, conta Jakobskind. “Fui preso ao desembarcar no aeroporto e foram confiscados alguns exemplares da edição em espanhol do livro”, lembra.

Segundo o jornalista, a vigilância passou, mas não a manipulação jornalística da grande mídia. “O cerco midiático que Cuba sofre desde o início de sua revolução, antes mesmo da declaração de que o país optaria pelo socialismo, é um fato concreto. Quase diariamente os principais jornais do eixo Rio-São Paulo só se referem a Cuba como uma ditadura onde o povo não tem direito de escolher seus dirigentes”, diz Jakobskind.

O livro reeditado pelo autor traz, entre os relatos adicionais, a história dos cinco contraterroristas cubanos que, por meio de espionagem, ajudaram a evitar a ação de grupos extremistas de Miami. Os “cinco patriotas”, presos desde 1998 nos EUA, depois de um processo à margem da lei, são tratados como heróis em Cuba.

É este o tema do próximo livro de Fernando Morais, a ser lançado em maio pela Cia. das Letras, com o sugestivo título de Os Últimos Soldados da Guerra Fria. Morais, autor de A Ilha (1976) — um clássico brasileiro sobre a Revolução Cubana — voltou ao país dos irmãos Fidel e Raul Castro para pesquisar a história dos cinco patriotas. Foi também à Flórida, nos Estados Unidos, onde leu as páginas do processo fraudulento contra os cubanos e entrevistou dezenas de pessoas envolvidas com o caso.

Sua conclusão é inequívoca: os Estados Unidos, com a colaboração da imprensa anticastrista da Flórida, violaram as leis para prender os cinco contraterroristas. “Em nome do patriotismo, todos eles viviam modestamente em Miami e tinham de lutar por sua sobreviência”, explica Morais, que foi mais de 15 vezes a Miami.

Em sua opinião, é hora de a luta pela libertação dos cinco cubanos deixar de ser uma causa restrita a entidades progressistas. “A esquerda não precisa ser informada sobre a brutalidade contra os cinco cubanos, porque já sabe. É preciso informar e ganhar a opinião pública. Por isso é que fiz questão de ouvir os dois lados da história e ir atrás da verdade”, diz o escritor.

Já Lázaro Mendez afirmou que outra batalha atual de Cuba é fortalecer a rede em defesa do socialismo cubano. “Estamos mudando e atualizando o socialismo para sermos melhores. O socialismo cubano será adaptado à realidade de hoje”, afirmou o cônsul, que agradeceu às entidades brasileiras pela “valorosa solidariedade”.

Para José Reinaldo Carvalho, diretor do Cebrapaz, Cuba cumpre um “papel internacional de bastião da resistência” contra os ataques imperialistas. “Nossa geração aprendeu com Fidel que, quando nada pode ser feito, pelo menos devemos resistir — pelo menos devemos protestar.”

BR - Carta aberta a Obama

Carta aberta dos cubanos residentes no Brasil a Barack Obama
Somos cubanos residentes no Brasil. Durante sua campanha presidencial nos EUA, estivemos esperançosos de que o senhor realmente produziria as mudanças que insistentemente prometia, em particular, aquelas relacionadas com nosso país. Porém, estamos cada vez mais desiludidos, pois não se observa nenhuma mudança na política norte-americana relacionada a Cuba, contra as expectativas da comunidade internacional e a opinião pública norte-americana.

Por uma esmagadora maioria, no ano 2010 – uma vez mais e por 19 vezes consecutivas –, na Assembléia Geral das Nações Unidas, a comunidade internacional recusou o criminal bloqueio que o governo norte-americano tem imposto a nosso país por mais de meio século e pediu o encerramento dessa política genocida.

O bloqueio econômico, comercial e financeiro fecha mais e mais suas garras e o senhor não tem usado suas amplas prerrogativas constitucionais, que lhe permitiriam introduzir importantes mudanças passíveis de aliviar enormes necessidades que nosso povo vem sofrendo há muitos largos anos.

O governo dos Estados Unidos – o seu governo, senhor presidente Obama – continua dificultando as vendas de alimentos a Cuba por parte de empresas norte-americanas e não permite que essas vendas sejam realizadas conforme as normas e práticas regulares do comércio internacional.

O bloqueio imposto a nosso país não é um assunto bilateral; ele tem um marcante caráter extraterritorial que viola as leis internacionais e as regulamentações internacionais do comércio, é ofensiva à soberania de terceiros estados e a os legítimos interesses de entidades e pessoas sob a sua jurisdição.

Por outra parte, o senhor ignora os crescentes chamados desde cada canto do mundo para que cesse a enorme injustiça perpetrada para encarcerar e submeter a desumanos maus tratos nossos Cinco Heróis Cubanos, depois de 12 anos de prisão devido a absurdas sentenças por crimes que não cometeram. A tarefa que eles realizavam era monitorar terroristas cubanos assentados em Miami, os quais representam um grande perigo não só para nosso país, mas também para os Estados Unidos. Estamos seguros de que isso é de seu conhecimento, senhor presidente.

Portanto, com toda firmeza lhe demandamos:

A eliminação do criminal bloqueio imposto a nosso país;

A imediata liberação dos nossos Cinco Heróis Cubanos.

O senhor tem as possibilidades constitucionais para atender a este reclamo. Prove que o senhor, realmente, pode mudar!