sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Turismo de saúde para estadunidenses em Cuba


William Neuman
Anuja Agrawal correu para o telefone. O presidente Barack Obama havia acabado de anunciar que restauraria as relações diplomáticas com Cuba – e Agrawal, que administra uma empresa de turismo médico em Orlando, Flórida, não queria perder a oportunidade.
Ela ligou para um administrador de serviços médicos em Cuba e concordou em ir adiante com um acordo que eles vinham discutindo havia meses na esperança de que pacientes norte-americanos pudessem logo começar a viajar para a ilha para fazer tratamento médico.
"Havia muito entusiasmo em relação a isso", disse Agrawal, diretora-executiva da Health Flights Solutions, acrescentando que se os estadunidenses começarem a viajar para Cuba em busca de tratamentos médicos a preços acessíveis, isso pode significar um grande impulso econômico para o sistema de saúde do país. "Para eles, estão vendo isso literalmente como ganhar na loteria."
À medida que o governo Obama reduz o isolamento econômico de Cuba, setores de vários tipos estão tentando descobrir o que o relaxamento das tensões significará para eles e exatamente quanta liberdade haverá.
Milhares de pessoas de outros países vão para Cuba a cada ano para o que é conhecido como turismo médico: viagens ao exterior para fazer cirurgias ou outros cuidados médicos, normalmente porque o tratamento lá é mais barato ou não está disponível onde os pacientes moram.
Agora, o governo Obama afrouxou as restrições de viagem para Cuba. Os estadunidenses podem viajar para o país por uma série de motivos, entre eles visitas familiares, conferências acadêmicas, apresentações públicas e atividades religiosas e educativas.
Embora o turismo ou as viagens para tratar da saúde ainda não sejam permitidos, o governo suspendeu uma restrição que exigia que muitos estadunidenses viajassem com grupos autorizados ou conseguissem uma licença prévia para visitar a ilha.
"É um relaxamento, um afrouxamento das restrições", disse Agrawal, acrescentando: "acho que ficará cada vez mais livre", uma vez que a porta estiver aberta.
Na prática, as mudanças podem significar que muito mais pessoas se sentirão livres para viajar para Cuba, mesmo para propósitos que estejam fora das categorias permitidas. Milhares de estadunidenses já viajam para Cuba para fazer turismo ou por outros motivos que estão fora das normas, e mesmo antes das mudanças, muitos cubano-americanos que visitavam a família aproveitavam a oportunidade para marcar tratamentos médicos, dizem muitas pessoas aqui.
Uma porta-voz do Departamento do Tesouro disse que os estadunidenses que desejam viajar para Cuba por motivos que estejam fora das atividades autorizadas podem pedir permissão, conhecida como licença especial, e que esses pedidos serão avaliados caso a caso.
Mas a porta-voz, que disse não ter autorização para falar oficialmente, disse que os estadunidenses que viajam para Cuba são obrigados a manter registros de sua viagem por cinco anos e podem estar sujeitos a auditorias para mostrar que a viagem ficou dentro das normas.
Jonathan Edelheit, diretor executivo da Associação Médica de Turismo, com sede na Flórida, disse que alguns hospitais nos EUA tinham expressado interesse em formar parcerias com instituições médicas cubanas, que poderiam incluir o treinamento de médicos cubanos.
Essas parcerias em outros países costumam andar de mãos dadas com o turismo médico, e este poderia eventualmente ser o caso em Cuba, disse ele.

"Teremos uma quantidade tremenda de movimento, quer seja de agentes de viagem ou de facilitadores de turismo médico, então quando isso se normalizar eles podem começar a enviar pacientes para cá", disse Edelheit.
Cuba tornou o cuidado com a saúde uma prioridade depois da revolução de 1959, e conquistou a reputação de fornecer cuidados médicos gratuitos e de boa qualidade para seu povo. Milhares de médicos cubanos também trabalham no exterior, na Venezuela, no Brasil e em outros países em desenvolvimento, em uma troca que fornece ao governo do presidente Raúl Castro moeda ou bens, como petróleo, em contrapartida.
Edelheit disse que o sistema de saúde cubano provavelmente terá apelo para alguns estadunidenses porque a ilha é muito próxima, cerca de uma hora de avião de Miami até Havana.
Mas por enquanto, os destinos mais populares para os estadunidenses viajarem para o exterior para cuidar da saúde são o Canadá, a Inglaterra, Israel, Cingapura e Costa Rica, de acordo com um estudo pela Associação de Turismo Médico. Ela descobriu que alguns dos procedimentos mais comuns incluem cirurgia plástica, de coluna e para perda de peso e tratamento para o câncer.
Diferentemente dos estadunidenses, os canadenses não têm restrições de viagem, e Cuba é um destino popular de viagem; muitos canadenses também viajam para lá para tratar da saúde.
David McBain, 47, um paisagista de Toronto que fraturou a coluna em um acidente de carro, foi para Cuba três vezes no ano passado para uma terapia física extensiva.
"Os fisioterapeutas e os médicos têm muito conhecimento e são bem treinados em Cuba, e você simplesmente não pode competir com o preço deles", disse McBain. "O preço é uma fração do que seria no Canadá ou nos EUA para um terapeuta."
McBain, que está parcialmente paralisado e usa uma cadeira de rodas, disse que foi tratado por várias semanas durante cada visita a uma instituição de saúde de Havana. Ele disse que o tratamento em Cuba custa cerca de US$ 200 (R$ 572) por dia, o que inclui cerca de seis horas de fisioterapia diariamente, um quarto confortável e alimentação.
O sistema nacional do Canadá não fornece o tipo de terapia de que ele precisa, disse ele, e um fisioterapeuta neurológico particular teria cobrado cerca de US$ 93 (R$ 266) por hora.
McBain acertou seu tratamento em Cuba através de uma empresa em Toronto chamada Global HealthQuest. Ben Soave e Rosemary Toscani, que administram a empresa, disseram que ela regularmente envia pacientes para Cuba para fisioterapia, reabilitação de uso de drogas e álcool, e para tratamento de uma doença ocular chamada retinose pigmentar.
A cirurgia de olhos e tratamentos relacionados, pioneiras na clínica cubana, não estão disponíveis no Canadá ou nos Estados Unidos, e já causaram controvérsias. Estudos independentes levantaram questões sobre a eficácia dos tratamentos, e os médicos da clínica foram criticados por não publicar os resultados de estudos em revistas médicas revisadas por pares.
"Se você não apresenta os seus resultados e publicações, então algo está errado", diz o médico Byron L. Lam, especialista na doença no Bascom Palmer Eye Institute em Miami.
Soave disse que os pacientes fizeram boas avaliações dos cuidados que receberam em Cuba, embora às vezes reclamem de outros aspectos.
"Há outras coisas que não são tão boas, como a comida, as acomodações, a falta de algumas das coisas que nós consideramos serviços básicos, como internet, telefones, esse tipo de coisa", disse ele. "Em termos de tratamento médico, foi excelente."
Ele também disse que os pacientes com os quais ele trabalhou não tinham buscado tratamento em Cuba por ter alguma simpatia política com o governo socialista da ilha.
"As pessoas perguntam: "para onde podemos ir para conseguir o melhor tratamento?", disse Soave. "Elas estão pensando em saúde, não em política."

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Como Barack Obama pode pôr fim às sanções econômicas contra Cuba


Desde a adoção a lei Helms-Burton, em 1996 — uma aberração jurídica por seu caráter extraterritorial e retroativo, que agrava as sanções econômicas contra a população cubana — o Presidente dos Estados Unidos já não dispõe da faculdade executiva para pôr fim ao estado de sítio econômico anacrônico, cruel e contraproducente — segundo as palavras do próprio Barack Obama. De fato, só o Congresso pode acabar com uma política hostil condenada pela imensa maioria da comunidade internacional, pela opinião pública estadunidense, pela comunidade cubana da Flórida e, sobretudo, pelo mundo dos negócios dos Estados Unidos.
Agência Efe

Bloqueio econômico atinge não somente comércio, mas também a área da saúde em Cuba
A Câmara de Comércio dos Estados Unidos, que representa o mundo dos negócios e cerca de três milhões de empresas, pediu aos responsáveis políticos, tanto ao governo como ao Congresso, que adotassem uma nova política em relação a Havana. Segundo seu presidente, Thomas Donohue, “é tempo de eliminar as barreiras políticas que foram estabelecidas há muito tempo e apagar nossas diferenças. Isso é do interesse do povo americano e das empresas americanas”.[1]
Em seu discurso histórico, de 17 de dezembro de 2014, no qual anunciou o restabelecimento das relações com Cuba depois de mais de meio século de ruptura, o presidente estadunidense chamou o Congresso a optar por um novo enfoque em relação a Havana. “Peço que o Congresso abra um debate sério e honesto sobre o cancelamento do embargo”, declarou Obama.[2]
A solução? Autorizar o turismo ordinário
Na realidade, o presidente Obama dispõe de uma forma bastante simples de acelerar o fim do estado de sítio econômico que afeta todas as categorias e todos os setores da sociedade cubana e que constitui o principal obstáculo para o desenvolvimento da ilha. Basta permitir que os cidadãos estadunidenses viagem para Cuba como turistas ordinários. Atualmente, os cidadãos dos Estados Unidos podem viajar para qualquer país do mundo, inclusive para a China, o Vietnã ou a Coreia do Norte, mas seu governo não lhes permite ainda que descubram a ilha do Caribe.
Ao romper essa barreira que separa os dois povos, Barack Obama permitiria, segundo as estimativas, que mais de um milhão de turistas estadunidenses viajassem a Cuba pela primeira vez. Essa cifra superaria os cinco milhões de pessoas anuais ao cabo de 5 anos, já que Cuba é um destino natural por razões históricas e geográficas evidentes. Assim, se abriria um imenso mercado para as companhias aéreas estadunidenses, para a indústria do transporte ou as agências de viagens, sem falar nos demais setores vinculados ao turismo massivo. Hoje, somente 90 mil cidadãos estadunidenses — fora os cubano-americanos — visitam Cuba todo ano por razões profissionais, acadêmicas, culturais, humanitárias ou esportivas, dentro das licenças concedidas pelo Departamento de Estado.[3]
O fluxo massivo de turistas para Cuba seria benéfico para a economia cubana, cujos recursos dependem, em grande parte, desse setor, mas também para a economia estadunidense. De fato, os produtores agrícolas estadunidenses seriam também grandes ganhadores de um recomeço do turismo entre ambas as nações e seria solicitado para alimentar os milhões de novos visitantes, já que Cuba importa a maior parte de suas matérias-primas alimentícias. Com a autorização do turismo ordinário para Cuba, o mundo dos negócios não deixaria de pressionar os membros do Congresso, cuja carreira política depende, em grande parte, dos financiamentos privados que recebem por parte das empresas, para que colocassem definitivamente um fim às sanções econômicas contra Cuba, que o priva de um mercado natural de 11.2 milhões de habitantes e potencialmente de 10 milhões de turistas procedentes de todo o mundo. Cuba acaba de superar os três milhões de turistas no ano de 2014.
Em um primeiro momento, o presidente Obama poderia dar ordens ao Departamento do Tesouro para não perseguir cidadãos estadunidenses que não estivessem enquadrados no estabelecido pela administração e viajassem para Cuba, já que as sanções econômicas que se aplicam aos que se arriscam a fazer uma viagem sem permissão, por meio do Canadá ou do México, são bastante dissuasivas. Isso teria como efeito flexibilizar as viagens de turistas para Cuba e — sobretudo —, reparar uma anomalia jurídica, uma vez que essa proibição viola a Constituição dos Estados Unidos, que defende o direito de mover-se livremente.
*Doutor em Estudos Ibéricos e Latino-americanos da Universidade Paris Sorbonne-Paris IV,  Salim Lamrani é professor-titular da Universidade de la Reunión e jornalista, especialista nas relações entre Cuba e Estados Unidos. Seu último livro se chama Cuba, the Media, and the Challenge of Impartiality, New York, Monthly Review Press, 2014, com prólogo de Eduardo Galeano.


[1]RTL, «La Chambre de commerce américaine souhaite une nouvelle relation USA-Cuba», 30 de maio de 2014 ; AFP, « La relation USA-Cuba doit changer maintenant, selon le président de la Chambre de commerce américaine », 30 de maio de 2014.
[2]The White House, « Barack Obama’s Speech: Charting a New Course of Era », 17 de dezembro de 2014. http://www.whitehouse.gov/issues/foreign-policy/cuba (site consultado em 17 de dezembro de 2014)
[3]Matt Beardmoredec, “How Travel to Cuba May Change”, The New York Times, 18 de dezembro de 2014.http://www.nytimes.com/2014/12/19/travel/how-travel-to-cuba-may-change.html?_r=0
Retirado de OperaMundi

Cuba ainda respira o respeito por sua história

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Havana é uma cidade das mais amistosas, organizada e operante no seu modo peculiar. E segura, absolutamente segura.
Se o futuro das tratativas sobre o fim do bloqueio econômico ainda é um mistério, sabe-se que apenas seu anúncio já mexe com a vida na ilha e deve acelerar e fortalecer processos de mudança.

Clarissa Pont e Eduardo Seidl (fotos), via RBA

La Revolución es invencible”, diz o outdoor. A frase acompanha uma foto de jovens meninas bailarinas, alinhadas, esticando-se para um ensaio. A imagem é bela e forte e a frase ressoa enquanto se caminha por Havana. Cuba hoje ainda respira respeito por sua história enquanto nutre expectativa por um processo mais intenso de atualização do modelo econômico e democrático cubano.
Para além do Floridita, apinhado de turistas e seus cigarros e daikiris numa tentativa um pouco decadente de se apropriar de Ernest Hemingway, dos restaurantes onde se come da melhor culinária internacional enquanto nas vendas das esquinas faltam manteiga e ovos, fora as ruínas de tantas casas coloniais e todas as idiossincrasias desse país, Cuba funciona muito melhor do que dizem.
Aos olhos de quem chega, preocupado com avisos de que a viagem não será fácil, Havana é uma cidade das mais amistosas, organizada e operante no seu modo peculiar. E segura, absolutamente segura. Salvo eventuais golpes que não assustariam nenhum latino-americano, caminhar a qualquer hora do dia e da noite pelas ruas da capital cubana é seguro. Do Malecón, a via urbana tão rente ao mar que em muitos trechos recebe espirros das ondas que jorram do Atlântico, às pequenas ruelas vicinais, da Habana Vieja apinhada de turistas de todas as línguas ao bairro mais residenciais livres de cocotaxis – a sensação de segurança acompanha quem caminha.
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Visitantes de todas as línguas se encontram no centro de Havana Velha, onde se respira reverência aos heróis e à história.
Nas ruas, a opinião geral em relação à expectativa do fim do bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos há seis décadas é ambígua. Será um processo lento e que precisa ser favorável a Cuba – não apenas aos Estados Unidos. O bloqueo, que existe desde 1962 e se intensificou com novas medidas na década de 90, afeta o bem-estar do povo cubano nos termos mais simples, além de prejudicar o desenvolvimento do país na sua economia.
De toda forma, a vida transcorre no dia a dia cheia de formas de driblar dificuldades. A maior parte da população possui celulares, muitos já equipados com uma espécie de correio eletrônico internacional pelo qual não é possível acessar nenhum endereço de internet do mundo, mas que possibilita de forma barata a correspondência por e-mail. O uso do correio eletrônico está tão popular que vem substituindo os SMS na comunicação interna na ilha. Antes disso, a única forma de acessar a rede fora de hospitais, grandes hotéis ou universidades era de forma ilegal através do compartilhamento de horas de internet liberadas para estrangeiros residentes na ilha.
De toda forma, com o anúncio da retomada das relações diplomáticas entre Estados Unidos e Cuba no final do ano passado, a juventude saiu às ruas para celebrar. A volta dos cinco heróis – os agentes de inteligência Gerardo Hernandez, Ramón Labañino, Antonio Guerrero, Fernando Gonzalez e René Gonzalez – à Cuba e a reunião da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) na Costa Rica com apoios ao fim do bloqueio, principalmente da presidenta Dilma Rousseff, ampliaram o clima de mudanças.
Desde 1998, os cinco cubanos permaneciam presos nos Estados Unidos arbitrariamente condenados a pesadas penas. Os agentes, infiltrados entre grupos anticastristas organizados no estado da Flórida, ajudavam a monitorar planos terroristas organizados contra Cuba desde o território estadunidense. Segundo a Anistia Internacional, não foram apresentadas provas que demonstrassem culpa dos acusados, que tampouco tiveram pleno acesso a defesa.
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No cenário opaco que parece congelado na história, a presença vibrante das cores no dia a dia de Havana.
Em janeiro, Dilma classificou a retomada de relações diplomáticas entre os dois países de “transcendência histórica” em seu discurso na 3ª Cúpula da Celac: “Essa medida coercitiva, sem amparo no direito internacional, deve ser superada. Começa a se retirar da cena latino-americana e caribenha o último resquício da Guerra Fria em nossa região, não tenho dúvidas de que a Celac tem sido catalisador desse processo”.
Em Washington, a batalha legislativa para pôr fim às restrições de viagens de cidadãos norte-americanos à ilha já dá seus primeiros passos, mas a normalização das relações só será completa, todos reconhecem, quando o bloqueio acabar. Já foram anunciadas medidas de flexibilização, como a autorização de vendas e exportações de bens e serviços dos Estados Unidos para Cuba. No entanto, o grosso das sanções econômicas e comerciais será mantido e só podem ser desmanteladas com aprovação no Congresso.
Há, lógico, desconfiança. Justamente porque em pontos importantes, como a retirada de Cuba da lista de países que financiam o terrorismo, a retomada do território de Guantánamo e restauração das normas migratórias como um todo, os Estados Unidos não parecem querer mover uma palha sequer. Ficam restabelecidas relações turísticas – o que não chega a ser um problema em Cuba.
Em fevereiro de 2015 centenas de pessoas circulam pela cidade falando todas as línguas possíveis, cruzeiros gigantescos atracam no Malecón e de lá saem hordas de turistas que param por dez minutos em cada atração e seguem para o próximo selfie. Canadenses possuem colônias de férias próprias e brasileiros agora estão casando em resorts cubanos.
Cuba é uma pequena aventura, que dividiremos em mais cinco notas a partir de hoje. Se o futuro das tratativas sobre o fim do bloqueio ainda é um mistério, sabe-se que apenas seu anúncio já mexeu bastante coma vida na ilha e deve acelerar e fortalecer processos de mudança. Bem por isso, conhecer a ilha ainda hoje, enquanto a realidade é tão distinta da grande parte dos países do mundo, é um grande privilégio.
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Lentamente, à medida que os recursos permitem, prédios vão sendo recuperados do passar dos anos sob bloqueio econômico.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

O papel da Federação de Estudantes Universitários na defesa da Revolução Cubana

Entrevista com a Secretária Nacional de Formação Político-ideológica da Federação Estudantil (ou dos Estudantes) Universitária de Cuba

Bandeira de Cuba, da UJC e da FEU. Por Erika Plascak Jorge

(NMLC) - Boa tarde, Yanet. Gostariamos que você nos explicasse como surgiu e qual era a função da FEU quando foi criada.

(Yanet) - Bem, a FEU foi criada no ano de 1922 e seu fundador foi Julio Antonio Mella (1). A formação da Federação está muito relacionado à reforma universitária de Córdoba (2), na Argentina, e as questões por ela levantada. Em Cuba começa a criar-se um movimento ao redor desse fenômeno, que desemboca na fundação e no primeiro congresso da organização.

No início, a FEU surgiu com outro interesse e visão, tratava-se sobretudo de representar os estudantes, mas também lutar pela reforma universitária e possibilitar a aproximação da universidade em relação ao povo e da comunidade em geral. Ainda, além de todas essas tarefas, o movimento estudantil lutava pela independência de Cuba, visto que naquele contexto os governos que mandavam no país representavam os interesses dos Estados Unidos. Tratava-se de conquistar uma soberania dentro da Universidade e para a sociedade cubana.

(NMLC) - E qual papel a FEU desempenhou na Revolução?

(Yanet) - Eu acredito que a história da FEU não pode ser separada da história da Revolução. A partir do ano de 1922, quando se funda a FEU, todos nós do movimento estudantil fizemos parte das diferentes correntes dos movimentos de luta gerados pelo povo cubano. Na realidade, os maiores líderes da Revolução saíram da luta na universidade. Fidel Castro, Raul Castro e outros que atualmente estão ocupando cargos de direção no país, saíram dessa luta. Inclusive, Fidel disse sobre a universidade "aqui me fiz revolucionário".

Durante os anos 20, depois, em outra etapa nos anos 30, no período de efervescência dos anos 40, e marcadamente nos anos 50, quando se realça o papel da FEU na luta, o movimento estudantil esteve bastante presente. Inclusive, a FEU possuía Diretórios Revolucionários (3), outra força que apoiava a luta, da qual muitos dirigentes e estudantes subiram as montanhas, a Sierra Maestra, para lutar também. Entretanto, não foi só na Sierra Maestra que os estudantes atuaram, pois, nas cidades, principalmente em Havana, muitos deles participaram da luta clandestina.

Foi por conta dos estudantes e todo o povo de forma geral que se conseguiu o triunfo revolucionário em 1º de janeiro de 1959.

(NMLC) - E como se organiza a FEU atualmente? 

Yanet Romero Cobas
(Yanet) - Atualmente a FEU está estruturada da base até o nível nacional da seguinte forma: na base, está estruturada nas diferentes faculdades, e nas faculdades está a estrutura primária, as brigadas. As brigadas são como grupos de uma classe. Também existe o conselho das brigadas dessa faculdade, que é direção da FEU nessa faculdade, integrado pelos presidentes das brigadas e o secretário a nível de faculdade. 

Também existe o secretário a nível de Universidade, que é o representante da FEU a nível da Universidade, e o secretariado a nível nacional da FEU. A nível nacional, existe um conselho nacional que está representado por todas províncias do país e que toma as decisões durante o período em que não há congresso, esse conselho se reúne anualmente. Já o congresso é realizado a cada 4 anos e é o órgão máximo de decisão.

(NMLC) - Quais são as transformações depois da revolução, tanto no objetivo, como na organização da FEU?

(Yanet) - Depois do trinfo da Revolução as missões da FEU passaram a ser outras, pois já não era necessário lutar pela educação pública e gratuita, porque já tínhamos essa conquista, isso já não era mais um problema. A Revolução nos impulsionou a realizar atividades no meio estudantil, que desenvolvêssemos o movimento desportivo, o movimento cultural, e que vinculássemos a universidade com a sociedade. Ou seja, que saíssemos da universidade e realizássemos atividades com a comunidade e trabalhássemos, por exemplo, nos bairros mais necessitados. A nível acadêmico, nos impulsionou a seguir construindo e melhorando a própria universidade e a qualidade da docência, ao exigir dos professores aulas melhores etc.

No ano de 1962 houve uma reforma universitária, já não como a de 1922, mas uma reforma mais no sentido de que dentro da universidade estivessem professores revolucionários e que as matrículas fossem justas. No ano de 1962, quando foi eleita a direção com a qual estivemos há poucos dias (4), começou o plano de becas universitárias, que é o plano de criação de residências estudantis nas quais pudessem ficar os estudantes. São grandes edifícios que as universidades fazem para que os estudantes que não são da cidade possam cursar sua carreira sem ter que se preocupar com outras coisas, pois têm, ali, gratuitas, alimentação, hospedagem e outras coisas. É no ano de 1962 que se inicia tal plano e essa série de serviços gratuitos.

No último congresso, dentre as resoluções e planos que aprovamos, está o tema de seguir aproximando mais os universitários à comunidade. São o que chamamos de Tarefas de Impacto Social, nas quais reunimos estudantes das diversas especialidades para apoiar as comunidades, com temas como a cultura jurídica, a cultura econômica, bem como a cultura em geral. Fazemos isso porque sabemos que há bairros em que  não há o mesmo desenvolvimento cultural de outros. Também, a universidade deve apoiar o desenvolvimento da recreação, dos espaços de diálogo e de debate.

Sobre esses espaços, nós acreditamos ser importante que os estudantes tenham essa oportunidade de dialogar com as personalidades de diferentes áreas. Inclusive, quando os diversos Ministros estiveram nas universidades, nós insistimos que eles deveriam trocar experiências com os estudantes, que os estudantes pudessem conversar diretamente com eles para expressar suas inquietudes. Temos trabalhado bastante nisso desde o último congresso da FEU.

No mês passado, recém finalizamos um encontro de estudantes de ciências médicas e também realizamos o Fórum Nacional de História, para promover o estudo da história de Cuba, da América Latina e a História universal. Nesse sentido, nós realizamos uma série de eventos, dirigimos as coisas orgânicas como o funcionamento e organização. Também realizamos festivais nacionais de artistas profissionais, o que envolve todo o tema cultural; um evento nacional desportivo e atividades na esfera do movimento científico.

Tudo isso na perspectiva da universidade cubana, que os  estudantes se formem de maneira integral. A intenção, tanto do Ministério da Educação Superior, como da FEU, é que os estudantes sejam bons tanto na docência, como também participem da vida cultural, esportiva e científica, e que compartilhem também com suas comunidades. Como dizia Julio Antonio Mella "Há que descer a colina universitária (as escadarias), e vincular-se mais com o povo", para que seja não uma universidade de elite, mas sim uma universidade popular.

(NMLC) - A FEU se relaciona com outros movimentos, como organizações de massa, políticas e sociais? Como é essa relação?

(Yanet) - Aqui em Cuba, pela estrutura e pelo próprio sistema político que existe, todas as organizações colaboram e se vinculam entre si. Atualmente, nós trabalhamos em conjunto principalmente com os movimentos juvenis que formam parte da União de Jovens Comunistas. Dentre elas a Federación de Estudiantes de la Enseñanza Media (FEEM) (5), que representa os secundaristas, o Movimento Juvenil Martiano e a Brigada de Instrutores de Arte. Além dessas, do movimento de jovens, há organizações como a Federação de Mulheres Cubanas, e os CDRs (os Comitês de Defesa da Revolução), que são as organizações de base dos bairros, com as quais temos trabalhado nas tarefas de impacto social, bem como atividades conjuntas em seus congressos. Também, com a Associação de Historiadores de Cuba; o Instituto de Rádio e Televisão de Cuba, desde as quais temos acesso a Televisão e a Rádio no país; e também fazemos atividades com as forças armadas. Ou seja, temos que trabalhar e nos relacionar com todas as organizações, e tudo flui muito bem. O que acontece aqui em Cuba, ainda que tenhamos funções diferentes, é que todos trabalham com o mesmo fim: seguir transformando e avançando com o processo revolucionário.

(NMLC) - E como a FEU se financia? Ela obtém algum subsídio do Estado ou é "auto-financiada" por seus integrantes?

(Yanet) - A FEU se mantém das duas formas, pelos membros, sendo cerca de 120 mil integrantes, que contribuem, cada um, com 3 pesos, o que, de fato, não é uma grande quantia, e também recebendo subsídios do Estado, através da União de Jovens Comunistas, que nos ajudam a realizar toda essa série de eventos e cada atividade que realizamos nos diversos lugares.

(NMLC) - Como a FEU se relaciona com a União de Jovens Comunistas e com o Partido Comunista de Cuba?

(Yanet) - Realmente as relações são muito boas. A FEU identifica, inclusive está plasmado em nossos estatutos, que a UJC é a guia, a vanguarda política da FEU. Nossa condutora política é a UJC, e dentro dessa mesma abordagem, como lhes dizia, na qual somos todos o mesmo, na universidade isso também ocorre. Metade de nossos universitários são militantes da juventude, ou seja, o estudante membro da FEU é o mesmo estudante membro da juventude. Não há qualquer contradição, visto que estamos nos mesmos centros e as duas organizações convergem. O que ocorre é que a FEU é uma organização de massas e a UJC é uma organização política, seletiva. Na UJC não é qualquer um que pode ser membro, pois existem certas condições, a pessoa tem de ser uma pessoa de vanguarda. Já a FEU é de todos que querem integrá-la. As relações entre as direções são muito boas e facilitam muitos projetos que realizamos. Já quanto ao Partido, que dessa mesma escala de relações é quem dirige a Juventude, nossas relações são muito boas em todas as esferas, desde a base até nível nacional. A função que o Partido assume é de nos guiar, nos orientar e nos ajudar. Minha visão, bem como a do secretariado da organização, é de que as relações são harmônicas e funcionais.

(NMLC) - E todo estudante universitário é da FEU?

(Yanet) - Na realidade, como explicava, a FEU é uma organização massiva e voluntária. Portanto, se o estudante deseja ele pode integrar a FEU. No primeiro ano, quando o estudante entra na universidade, ele é explicado acerca do que é a organização, sobre as atividades que ela realiza, então ocorre o processo de ingresso. No dia 30 de setembro de cada ano temos o ato de entrega das carteiras da FEU, normalmente todos participam. Ainda, pode ocorrer de haver um estrangeiro, que também pode se integrar, mas sempre se estiver de acordo com sua vontade.

Dentro da universidade não pedimos as carteiras quando realizamos nossas atividades, nos preocupamos com todos os estudantes, sejam ou não da FEU. 

(NMLC) - E como são definidos os dirigentes e os delegados da FEU?

(Yanet) - O processo eleitoral da FEU se realiza a cada ano e também começa no mês de setembro. Começam as eleições nas brigadas, que é a estrutura básica, e daí se elegem os líderes dessas brigadas e também se elaboram as propostas para a faculdade. Depois, ocorre a eleição a nível de faculdade, na qual são expostas os dados dos estudantes propostos, sua biografia e sua trajetória. Nessas eleições, a nível de faculdade, votam todos os estudantes. Posteriormente, para as eleições na universidade, se apresentam as propostas das faculdades e se cria uma comissão de candidatura. Igualmente a eleição na faculdade, votam todos os estudantes. Já a nível nacional, visto que é impossível que todos os estudantes votem, são votados ou no congresso, quando há congresso, ou no conselho nacional da FEU, pelos representantes que vem de todas as províncias. Todos os anos ocorrem eleições e os dirigentes que representam os estudantes são elegidos pelos próprios estudantes.

(NMLC) - E qual é a relação da FEU com a FEEM?

(Yanet) - Somos da mesma família, a União de Jovens Comunistas. Realizamos muitas atividades com eles, principalmente indo aos pré-universitários, que é onde se concentram os estudantes do ensino médio, onde fazemos atividades vocacionais e informamos aos estudantes do pré-universitário sobre as carreiras e o que realmente se faz na universidade, porque, muitas vezes, essa garotada não tem muito bem definido a carreira que quer escolher. Também realizamos atividades culturais, recreativas e desportivas em conjunto, como parte da extensão universitária.

(NMLC) - E para finalizar, atualmente, quais os principais desafios da FEU?

(Yanet) - O principal desafio que temos hoje, falando não como dirigente, mas como estudante universitário, em primeiro lugar, é seguir nos preparando com essa formação integral, porque acredito que as revoluções necessitam de homens integrais, e não de grandes acadêmicos ou advogados, mas sim de grandes acadêmicos e advogados que sejam revolucionários e pessoas integrais. Eu acredito que com esse tipo de pessoa é que se salva a Revolução. O grande desafio da FEU é seguir acompanhando e formando esses homens integrais. Também, seguir representando cada dia mais os estudantes, pois essa é a base de nossa organização, representar, orientar e mobilizar para o bem da organização. Porque o que façamos para o bem da organização é para o bem da revolução.

Eu também vejo que temos muitos desafios no contexto latino americano. A FEU de Cuba é a que está presidindo atualmente a Organização Continental Latino Americana e Caribenha de Estudantes(OCLAE), que logo terá um congresso na Nicarágua, no qual temos o desafio de que a FEU de Cuba siga com a presidência. Aqui em Cuba está o secretariado executivo da organização, a qual é composta por um brasileiro de uma organização de estudantes do Brasil, também representada por um estudante do Equador e de uma série de países que estão aqui trabalhando. Na OCLAE temos como principal desafio seguir debatendo a educação publica e gratuita na América Latina, pois a organização deve se pautar pela necessidade de cada um dos países, e, infelizmente, ainda temos muitas matrículas privadas no continente, bem como seguir promovendo a luta em cada um dos países, e seguir nos aproximando das comunidades através da realização de atividades de impacto social.

Os principais desafios estão nesse sentido, seguir fortalecendo a organização, formando os homens integrais, trabalhando pela integração latino americana, pela educação gratuita e pública no resto dos países e seguir apoiando os líderes da Revolução, impulsionando que os estudantes sejam cada vez mais revolucionários, o que é nossa responsabilidade.

30 de junho de 2014.

Notas:

(1) - Nascido em 1903, Julio Antonio Mella foi revolucionário cofundador do Partido Comunista de Cuba; integrante da Internacional Sindical Vermelha; fundador da Federación Estudiantil Universitaria, da Liga Anticlerical, da Universidade Popular "José Martí", que buscava formar politicamente os trabalhadores, da Seção da Liga Antiimperialista de Cuba e de uma série de organizações revolucionárias. Em 1929, exilado no México, aos 26 anos, foi assassinado à pedido de Gerardo Machado, ditador cubano do período. Julio é um mártir da luta revolucionária que em suas últimas palavras, após ser alvejado, afirmou: "morro pela revolução".

(2) - A Reforma Universitária de 1918 na Argentina foi um feito levado à cabo pelo movimento estudantil desse país após resultados fradulentos no sistema eleitoral universitário. Os estudantes tomaram uma série de universidades no país, o que levou o governo argentino a interferir e transformar uma série de estruturas universitárias. A mobilização dos argentinos teve impacto continental. Foi um marco das lutas estudantis no continente.

(3) - O Diretório Revolucionário foi uma organização de caráter insurreicional que participou ativamente das lutas da Revolução Cubana. Dentre elas o famoso assalto ao palácio presidencial. Em 1956, no México, a liderança do Diretório Revolucionário, José Antonio Echeverría, assinou com a liderança do movimento 26 de Julio, Fidel castro, um pacto (O Pacto do México) de união de fins na luta contra a ditadura de Batista. O Diretório atuava majoritariamente nas cidades.

(4) - Os integrantes do NMLC (Núcleo Marxista-Leninista Camaradas ) estiveram com Yanet poucos dias antes da entrevista, no dia 26 de júlio de 2014, em um evento em homenagem aos revolucionários que estiveram à frente da FEU no ano de 1962. [A entrevista acima foi realizada pelo Núcleo Marxista-Leninista Camaradas].


(5) - A Federación de Estudiantes de la Enseñanza Media (FEEM) é a organização representativa dos estudantes secundaristas de Cuba.

Retirado de SOLIDÁRIOS

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Política de internet em Cuba: "Com Todos e Para o Bem de Todos".

Miguel Díaz-Canel Bermúdez, Vicepresidente del Consejo de Estado y de Ministros, en la clausura del primer Taller Nacional de Informatización y Ciberseguridad, celebrado en el Centro de Investigaciones de Tecnologías Integradas (CITI). Foto: Raúl Pupo/ Juventud Rebelde
Miguel Díaz-Canel Bermúdez, vice-presidente do Conselho de Estado e de Ministros, no encerramento da Primeira Oficina Nacional de Informatização e Cibersegurança, ocorrida no Centro de Investigações de Tecnologias Integradas (CITI). Foto: Raúl Pupo/ Juventud Rebelde

Existe a vontade e disposição do Partido e do Governo cubanos de desenvolver a informatização da sociedade e colocar a Internet ao serviço de todos e conseguir uma inserção efetiva e autêntica dos cubanos nesse espaço, disse nesta sexta-feira (20/2) o Primeiro vice-presidente cubano Miguel Díaz-Canel Bermúdez.
O também membro do Bureau Político do Partido Comunista de Cuba, assistiu às conclusões da Primeira Oficina de Informatização e Cibersegurança, que ocorreu em Havana onde se propiciou “um debate honesto e sincero, crítico e justo, amplo e participativo, sério e comprometido, realista e objetivo e também visionário”.
É o início de uma imensa tarefa estratégica que vamos construir e que já estamos construindo, afirmou.
Díaz Canel assegurou que o tema, que reuniu cerca de 250 peritos do país e que abriu um fórum de debate ao vivo com mais de 75000 visitas em 48 horas, é “complexo, não existem receitas nem resposta única e se necessita trabalhar com visão de país e com a participação intersetorial, interdisciplinar e aberta, que permita construir uma estratégia nacional, que coloque esta tecnologia e a infraestrutura que deve acompanhá-la, ao serviço da construção do socialismo próspero e sustentável que se pretende”.
“Um tema como este não pode estar desvinculado dos grandes temas aos que se enfrenta o país”, afirmou.
Disse que “na medida em que possamos ter mais claro, mediante a construção coletiva, o projeto de país que queremos, estará muito mais clara a forma em que uma ferramenta como a Internet pode colocar-se a seu serviço”.
Recordou as palavras do líder da Revolução cubana, Fidel Castro, que em 7 de março de 2006, no ato pelo décimo-quinto aniversário do Palácio Central de Computação, afirmou que “a informática se converterá em uma poderosíssima força científica, econômica e até política” para Cuba.

O capital humano da Revolução é inegável

Assegurou que o enorme capital humano formado pela Revolução é inegável e constitui na principal fortaleza para enfrentar os desafios e metas futuros. “Este evento tem visibilizado esse potencial”.
Chamou a atenção sobre o fato de que o bloqueio dos EUA a Cuba -ainda que alguns não queiram considerar- tem limitado o acesso a financiamentos, tecnologias, sistemas, infraestruturas, software y aplicações.
“O reconhecimento de seu fracasso como política por parte do Presidente Obama e o anúncio de que realizarão investimentos no setor das telecomunicações, para que o povo cubano possa ter acesso a elas, é um reconhecimento disso”, disse Díaz-Canel.
A mudança de tática, com propósitos similares de destruir a Revolução -acrescentou-, penetrando subversivamente na sociedade, “também acentua a necessidade de que avancemos mais no processo de informatização”.
Recordou os planos de espionagem a governos e pessoas utilizando de maneira perversa estas tecnologias e a denúncia pública deste tema que fez o Presidente Raúl Castro na abertura da II Cimeira da CELAC, em Havana, em 28 de janeiro de 2014.

Muito foi feito mas não tudo que necessitamos

“Muito foi feito mas não tudo que necessitamos, nem da maneira mais coerente”, reconheceu.
É o marco propício para exigir a vontade do Partido e do Governo cubanos, para passar a um amplo processo de informatização que garanta o uso amplo e seguro da Internet, de maneira inclusiva e em função do desenvolvimento do país, disse.
O Primeiro vice-presidente assegurou que “o Estado trabalhará para que este recurso esteja disponível, acessível e barato para todos”.
Reconheceu que “há uma responsabilidade do Estado e da sociedade para que isso se faça efetivo e também pressupõe a convivência com outros direitos fundamentais: o direito à informação, comunicação, participação, prestação social de contas, unida à responsabilidade individual e coletiva”. 

Um direito e um dever

Díaz-Canel acrescentou que “o direito a Internet se acompanha por conseguinte dos deveres do cidadão e das organizações e instituições para com a sociedade. É, então, totalmente responsável reconhecer que o direito de todos a Internet supõe deveres em relação com seu uso adequado e conforme à Lei e supõe também a responsabilidade dos órgãos de controle que velam pela defesa do país e de sua integridade”.
Agregou que a Internet deve ser ”uma ferramenta ao serviço do desenvolvimento humano sustentável do país e sua inserção efetiva no mundo”.
Internet e o acesso às Tecnologias da Informação e das Comunicações em geral,“oferecem oportunidades para que as pessoas, as organizações e as comunidades possam desenvolver seu potencial pleno, promover seu desenvolvimento sustentável e melhorar sua qualidade de vida”, e disse: ”Internet não resolve os problemas por si só, mas pode ajudar a respaldar as estratégias em função do desenvolvimento social“.
“São os problemas fundamentais da sociedade, seus desafios econômicos, sociais e culturais os que devem estar no centro da estratégia e demandar o uso criativo e intensivo da Internet”, acrescentou o vice-presidente.
Inauguración del Primer Taller de Informatización y Ciberseguridad, en el Palacio de Convenciones, en La Habana, Cuba, el 18 de febrero de 2015. AIN FOTO/Abel ERNESTO
Abertura da Primeira Oficina de Informatização e Cibersegurança no Palácio de Convenções, em Havana, Cuba, em 18 de fevereiro de 2015. Foto: Abel Ernesto / AIN.

Princípios definidos num claro e importantíssimo discurso

Outras ideias de Miguel Díaz-Canel neste importantíssimo discurso:
  • O desenvolvimento da Ciência é, hoje, inconcebível sem Internet e a participação de nossos cientistas nas correntes principais da Ciência está mediada pela capacidade de acessar a uma Internet de qualidade.
  • A estratégia de acesso a Internet deve ser desenhada, desenvolvida e implementada sobre a base da mais ampla participação e para contribuir e potencializar o desenvolvimento humano sustentável, do contrário a fragmentação e irracionalidade dos processos se multiplicarão.
  • O acesso a Internet supõe ao mesmo tempo desafios e oportunidades mas constitui uma opção necessária para o desenvolvimento da sociedade nas condições contemporâneas.
  • A estratégia de acesso a Internet deve converter-se em uma arma fundamental dos revolucionários para conseguir a participação social na construção do projeto de sociedade que queremos, desde um desenho integral de país.
  • A estratégia de uso da Internet para o desenvolvimento humano sustentável, de acordo com o modelo de sociedade cubano, tem que ser liderada pelo Partido e deve envolver todas as instituições e a sociedade para conseguir o mais pleno uso de suas potencialidades em função do desenvolvimento nacional.
  • Internet como meio de acesso a informação e a comunicação impõe desafios às formas até agora predominantes de organização e participação social.
  • O socialismo outorga um lugar preferencial ao direito à informação como condição para o pleno exercício da crítica e da participação popular.
  • Internet levanta desafios às formas tradicionais de Comunicação Social, ao uso dos meios de comunicação, ao papel dos indivíduos no espaço público e exige a existência de políticas, normas e formas de funcionar novas, que devem alinhar infraestruturas, serviços e conteúdos para garantir esse direito.
  • Internet, mais que um espaço de acesso à informação, é um espaço para a comunicação social, a cooperação, a associação e o trabalho em suas mais variadas manifestações e, como tal, deve favorecer-se.
  • Os regulamentos da Internet devem ser coerentes com as normas, princípios e políticas sociais e devem ser transparentes para todos os cidadãos, deixando claramente estabelecidos direitos e deveres.
  • Os regulamentos e normas que regem o acesso a Internet e seu uso devem ser coerentes com a legislação e alinhar-se com os princípios gerais da Constituição e demais leis vigentes e ajustar-se às necessidades dinâmicas do desenvolvimento social.
  • Internet é uma ferramenta ao serviço da identidade e da cultura nacional e da inserção soberana e universal dos cubanos, incluindo a soberania tecnológica.
  • O fomento e universalização do acesso e uso da Internet deve formar parte do processo de desenvolvimento cultural nacional em seu mais amplo sentido e deverá ser acompanhado do fomento da produção cultural nacional, a promoção de seus valores e a mais ampla difusão nacional e internacional.
  • É parte da infraestrutura básica para o desenvolvimento das atividades econômicas e empresariais do país e o desenvolvimento das capacidades nacionais neste campo  ao próprio tempo é uma atividade econômica com alto potencial de desenvolvimento.
  • Neste contexto deverá fomentar a criação de uma infraestrutura de Internet de acordo com nossas possibilidades, que sirva de base para o desenvolvimento das atividades econômicas em todos os níveis, os estatais, as cooperativas e dos setores particulares (cuentapropistas).
  • Internet é um potencial gerador de serviços e de atividades econômicas que constituem elas mesmas em fontes geradoras de emprego e recursos e crescimento econômico.
  • Internet é uma plataforma para o desenvolvimento nacional que está sujeita ao controle social.
  • Além de garantir uma gestão efetiva de seus recursos, é imprescindível estabelecer mecanismos de prestação de contas que permitam verificar em que medida o uso deste recurso está em função das metas de desenvolvimento do país e do melhoramento da qualidade de vida dos cubanos.
  • É um dever e uma responsabilidade administrativa controlar que os recursos postos em função de metas sociais se usem nesta direção e que o uso dos recursos disponíveis se coloquem em função de apoiar as metas prioritárias da nação.

Problemas reconhecidos no evento

O Membro do Bureau Político do Comitê Central comentou que durante o debate desta I Oficina de Informatização e Cibersegurança, se reconheceram:
  • a ausência de políticas,
  • a implementação lenta e carente de integralidade,
  • a fragmentação,
  • a setorização;
  • o marco regulatório fragmentado, setorial e desintegrado;
  • a ineficiência dos serviços;
  • uma determinada não profissionalização e dispersão dos recursos humanos;
  • existência de ilegalidades;
  • centralização do desenvolvimento da infraestrutura;
  • falta de transparência no uso dos recursos da Internet cubana;
  • limitações no acesso desde as instituições;
  • dependência tecnológica;
  • insuficiente dinâmica no desenvolvimento de serviços e conteúdos.
  • complexidade na aprovação do acesso a Internet por pessoas e instituições.
Todos estes problemas, complementou Díaz-Canel, atentam contra a obtenção de uma adequada informatização da sociedade.
Incluiu também como desafios:
  • Aumento da capacidade do Centro de Dados Nacionais e dos dispositivos de acesso,
  • Uma legislação nacional coerente,
  • Legislação nacional coerente e coerente com os princípios ordenadores.
  • Educação em Internet e sobre Internet
  • Educação através da Internet
  • Acesso ao Conhecimento e a Cultura Geral Integral na Internet
  • Padrões livres e de código aberto
  • Participação on line nos assuntos públicos
  • Proteção dos consumidores na Internet
  • Saúde e os Serviços Sociais estratégicos
  • Soluções jurídicas e judiciais das autuações relacionadas com a Internet
  • O tema audiovisual, que é o código fundamental de comunicação com as novas gerações
  • A automatização, que deve responder aos problemas que exige a situação demográfica do país…

Com todos e para o bem de todos

O vice-presidente afirmou que solucionar estes problemas é o objetivo essencial das bases, eixos estratégicos e prioridades da estratégia de Informatização e Cibersegurança da nação cubana.
Reiterou que este sistema de trabalho é dirigido pela máxima instância do Partido, do Estado e do Governo através do Conselho de Informatização e Cibersegurança criado há dois anos, com a missão de proteger, coordenar e controlar as políticas e estratégias integrais deste processo.
Em correspondência com os riscos e ameaças identificadas no ciberespaço -acrescentou-, se desenham ações para proteger nossa soberania e afiançar a cooperação internacional em matéria de cibersegurança com outras nações, como China e Rússia, com as quais já existem acordos.
Assegurou que estes debates da Oficina e os que se formaram na rede, contribuirão em definir as ações de trabalho a curto e médio prazo no país, e concluiu:
Somente a integração da inteligência coletiva, como resultado da formação do capital humano criado em mais de 55 anos de Revolução permitirá alcançar os resultados esperados. 
A única forma em que Cuba pode integrar-se soberanamente à Internet é com uma visão de nação e uma infraestrutura com serviços nacionais integrados que beneficiem o universo de suas instituições, organizações e cidadãos. Necessitamos distinguir-nos, como país socialista, por una Informatização e uma Internet com todos e para o bem de todos.
Não podemos temer os desafios que impõe uma rede como a Internetnão podemos renunciar ao projeto de uma sociedade mais justa, livre e democrática que seja o culto dos cubanos à dignidade plena do homem e que se faça efetiva no contexto que nos toca viver.
A Informatização e a Internet deverão acompanhar a oportunidade de todos os cubanos de participar de forma ativa na construção do país socialista, próspero e sustentável que compartilhamos em nossas aspirações.
Trabalhemos todos para obter a necessária informatização na sociedade cubana. Nesta batalha, também venceremos.

I Oficina

A I Oficina de Informatização e Cibersegurança aconteceu durante três dias -de 18 a 20 de fevereiro de 2015- no Centro de Investigações de Tecnologias Integradas (CITI), do Instituto Superior Politécnico José Antonio Echeverría.
Participaram cerca de 250 peritos nacionais e se apresentaram 71 trabalhos. Teve a característica de habilitar na página web institucional do Ministério de Comunicações um fórum debate que esteve disponível durante 48 horas, ao qual visitaram 73 882 cibernautas.
Além disso, foram recolhidas mais de 1 000 opiniões que refletiram, de maneira geral, as ideias em torno às bases para a política de informatização da sociedade, as prioridades nacionais de informatização e a criação da organização social que agrupa os profissionais deste ramo: a União de Informáticos de Cuba.

Cuba negocia acordo com empresa dos EUA para conexão direta


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Empresa de Telecomunicações de Cuba S.A. (ETECSA) e a IDT Domestic Telecom, INC. concluiram as negociações com o propósito de assinar um Acordo de Serviços para a Operação de Telecomunicações Internacionais que permitirá a interconexão direta entre os EUA e Cuba. São esperadas as aprovações correspondentes das autoridades estadunidenses para sua posterior implementação.
O restabelecimento das comunicações diretas entre os Estados Unidos e Cuba permitirá maiores facilidades e qualidade nas comunicações entre os povos de ambas as nações.
Direção de Comunicação Institucional
ETECSA
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