quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Cuba ainda respira o respeito por sua história

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Havana é uma cidade das mais amistosas, organizada e operante no seu modo peculiar. E segura, absolutamente segura.
Se o futuro das tratativas sobre o fim do bloqueio econômico ainda é um mistério, sabe-se que apenas seu anúncio já mexe com a vida na ilha e deve acelerar e fortalecer processos de mudança.

Clarissa Pont e Eduardo Seidl (fotos), via RBA

La Revolución es invencible”, diz o outdoor. A frase acompanha uma foto de jovens meninas bailarinas, alinhadas, esticando-se para um ensaio. A imagem é bela e forte e a frase ressoa enquanto se caminha por Havana. Cuba hoje ainda respira respeito por sua história enquanto nutre expectativa por um processo mais intenso de atualização do modelo econômico e democrático cubano.
Para além do Floridita, apinhado de turistas e seus cigarros e daikiris numa tentativa um pouco decadente de se apropriar de Ernest Hemingway, dos restaurantes onde se come da melhor culinária internacional enquanto nas vendas das esquinas faltam manteiga e ovos, fora as ruínas de tantas casas coloniais e todas as idiossincrasias desse país, Cuba funciona muito melhor do que dizem.
Aos olhos de quem chega, preocupado com avisos de que a viagem não será fácil, Havana é uma cidade das mais amistosas, organizada e operante no seu modo peculiar. E segura, absolutamente segura. Salvo eventuais golpes que não assustariam nenhum latino-americano, caminhar a qualquer hora do dia e da noite pelas ruas da capital cubana é seguro. Do Malecón, a via urbana tão rente ao mar que em muitos trechos recebe espirros das ondas que jorram do Atlântico, às pequenas ruelas vicinais, da Habana Vieja apinhada de turistas de todas as línguas ao bairro mais residenciais livres de cocotaxis – a sensação de segurança acompanha quem caminha.
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Visitantes de todas as línguas se encontram no centro de Havana Velha, onde se respira reverência aos heróis e à história.
Nas ruas, a opinião geral em relação à expectativa do fim do bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos há seis décadas é ambígua. Será um processo lento e que precisa ser favorável a Cuba – não apenas aos Estados Unidos. O bloqueo, que existe desde 1962 e se intensificou com novas medidas na década de 90, afeta o bem-estar do povo cubano nos termos mais simples, além de prejudicar o desenvolvimento do país na sua economia.
De toda forma, a vida transcorre no dia a dia cheia de formas de driblar dificuldades. A maior parte da população possui celulares, muitos já equipados com uma espécie de correio eletrônico internacional pelo qual não é possível acessar nenhum endereço de internet do mundo, mas que possibilita de forma barata a correspondência por e-mail. O uso do correio eletrônico está tão popular que vem substituindo os SMS na comunicação interna na ilha. Antes disso, a única forma de acessar a rede fora de hospitais, grandes hotéis ou universidades era de forma ilegal através do compartilhamento de horas de internet liberadas para estrangeiros residentes na ilha.
De toda forma, com o anúncio da retomada das relações diplomáticas entre Estados Unidos e Cuba no final do ano passado, a juventude saiu às ruas para celebrar. A volta dos cinco heróis – os agentes de inteligência Gerardo Hernandez, Ramón Labañino, Antonio Guerrero, Fernando Gonzalez e René Gonzalez – à Cuba e a reunião da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) na Costa Rica com apoios ao fim do bloqueio, principalmente da presidenta Dilma Rousseff, ampliaram o clima de mudanças.
Desde 1998, os cinco cubanos permaneciam presos nos Estados Unidos arbitrariamente condenados a pesadas penas. Os agentes, infiltrados entre grupos anticastristas organizados no estado da Flórida, ajudavam a monitorar planos terroristas organizados contra Cuba desde o território estadunidense. Segundo a Anistia Internacional, não foram apresentadas provas que demonstrassem culpa dos acusados, que tampouco tiveram pleno acesso a defesa.
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No cenário opaco que parece congelado na história, a presença vibrante das cores no dia a dia de Havana.
Em janeiro, Dilma classificou a retomada de relações diplomáticas entre os dois países de “transcendência histórica” em seu discurso na 3ª Cúpula da Celac: “Essa medida coercitiva, sem amparo no direito internacional, deve ser superada. Começa a se retirar da cena latino-americana e caribenha o último resquício da Guerra Fria em nossa região, não tenho dúvidas de que a Celac tem sido catalisador desse processo”.
Em Washington, a batalha legislativa para pôr fim às restrições de viagens de cidadãos norte-americanos à ilha já dá seus primeiros passos, mas a normalização das relações só será completa, todos reconhecem, quando o bloqueio acabar. Já foram anunciadas medidas de flexibilização, como a autorização de vendas e exportações de bens e serviços dos Estados Unidos para Cuba. No entanto, o grosso das sanções econômicas e comerciais será mantido e só podem ser desmanteladas com aprovação no Congresso.
Há, lógico, desconfiança. Justamente porque em pontos importantes, como a retirada de Cuba da lista de países que financiam o terrorismo, a retomada do território de Guantánamo e restauração das normas migratórias como um todo, os Estados Unidos não parecem querer mover uma palha sequer. Ficam restabelecidas relações turísticas – o que não chega a ser um problema em Cuba.
Em fevereiro de 2015 centenas de pessoas circulam pela cidade falando todas as línguas possíveis, cruzeiros gigantescos atracam no Malecón e de lá saem hordas de turistas que param por dez minutos em cada atração e seguem para o próximo selfie. Canadenses possuem colônias de férias próprias e brasileiros agora estão casando em resorts cubanos.
Cuba é uma pequena aventura, que dividiremos em mais cinco notas a partir de hoje. Se o futuro das tratativas sobre o fim do bloqueio ainda é um mistério, sabe-se que apenas seu anúncio já mexeu bastante coma vida na ilha e deve acelerar e fortalecer processos de mudança. Bem por isso, conhecer a ilha ainda hoje, enquanto a realidade é tão distinta da grande parte dos países do mundo, é um grande privilégio.
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Lentamente, à medida que os recursos permitem, prédios vão sendo recuperados do passar dos anos sob bloqueio econômico.

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