quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

"Fidel é um fora de série".

Randy Perdomo García, presidente da Federação de Estudantes Universitários
(FEU), da Universidade de Havana

Fotos: Cortesia do autor

Tudo começou com uma ligação de Fidel ao Gabinete da Federação dos Estudantes Universitários (FEU), da Universidade de Havana (UH), no dia 22 de janeiro, às 21:20 horas. Embora fosse precedida de um aviso acerca do momento que me deparava, aquela voz, tantas vezes escutada de longe, foi empolgante ao senti-la tão próxima.


“Randy, como você vai?”
“Comandante, eu estou bem. Não posso acreditar que esteja conversando com o senhor”.
Ele riu e agradeceu “a mensagem que você me fez chegar. Li-a várias vezes”. Referia-se ao nosso projeto de comemorar os 70 anos do seu ingresso na Universidade com uma jornada de amor e compromisso. Percebe-se seu entusiasmo quando anuncia uma surpresa e me convida a uma conversa pessoal no dia seguinte.
Mas nessa mesma noite conseguimos falar um pouco mais: por volta de 50 minutos. Sua voz soa tão presente, como se os dois estivéssemos sentados no Salão dos Mártires, que ele recordou várias vezes, por ter sido o lugar de reuniões em sua época na FEU.
“Já são 70 anos da minha entrada na Universidade, que se completarão em 4 de setembro”, diz-me.
Conversamos com alegria, como dois colegas de turma. Ele, com sua simplicidade impressionante, tentando que eu me sentisse em igualdade de condições. Eu, de minha parte, sem poder me explicar totalmente a sorte extraordinária que me fazia viver esse instante único. Ainda, estava irrequieto e preocupado, ao pensar como ia responder ao “bombardeio” de interrogantes ao qual sempre tem acostumado aos seus interlocutores este conversador audacioso.
Ele quis saber acerca das faculdades da Universidade e da Casa Estudantil, o que tinha sido antes de se converter na Casa da FEU, a quem pertenceu, em que ano ocorreu a mudança. Eu tentava responder tudo, ciente de que nós nunca estamos totalmente prontos para ter todas as respostas que exige um diálogo dessa índole. Não era um teste e, ao mesmo tempo, era isso. Eu precisava transmitir muito em nome da juventude universitária e essa pressão estava aí, embora o espírito da conversa quase que me fazia esquecer tudo.
Ele se interessou pela situação atual de todas as carreiras da Universidade e ao falar sobre a Faculdade de Física, antigamente a de Arquitetura, falou empolgado de José Antonio Echeverría. Expliquei-lhe que a Faculdade de Física está agora no edifício Varona e me interrompeu: “O prédio de Pedagogia!”, disse e aí mesmo começou a indagar acerca das salas de aula.
E justamente quando eu comecei a transpirar de novo, por causa do temor de não ter todas as respostas, Fidel lançou a interrogante que eu menos esperava: “Vem cá, Randy, qual é o número de cadeiras que tem uma sala de aula nesta Faculdade de Física?” E eu, naturalmente, fiquei sem palavras. Estava espantado por essa curiosidade infinita e a necessidade e anseios dele por saber, até o mínimo pormenor, como funciona o mundo.
Explico-lhe que o edifício é compartilhado por estudantes de diferentes nacionalidades que aprendem espanhol em Cuba: chineses, estadunidenses, vietnamitas. Então precisa: “Não posso acreditar! Chineses também? E me lembra com detalhes os programas desse acordo com a República Popular da China.
“E como é organizado o Conselho Universitário do edifício Varona ao ter a carreira de Física e os estudos para aprender espanhol?”, insiste. Comento-lhe que isso é provisório, até terminarem as obras no edifício de Física. Então, o Varona será o centro de convenções da Colina universitária.
Afinal consigo comentar-lhe acerca das atividades da jornada que os estudantes universitários preparamos para comemorar o 70º aniversário da entrada de Fidel à Universidade. Antecipo-lhe nossa ideia de subir também ao Pico Turquino.
“Ótimo, Randy, estejam prontos. Quando a gente se encontrar de novo contarei curiosidades da nossa experiência na Sierra.”
Não quero guardar nenhum detalhe e ainda lhe comento que visitaremos a casa onde ele nasceu. Responde com um silêncio longo que é quebrado para me perguntar como vão meus estudos de Filosofia, em que ano estou da carreira e o que pensa minha família do que faço.
Depois, ele quer conhecer como é que se organiza a FEU na Universidade. Descrevo-lhe o apoio do Reitor e da Universidade no melhoramento das condições de vida e da infraestrutura, das residências estudantis, das faculdades e do aperfeiçoamento do Estádio Universitário, conhecido pelo pessoal da UH como o SEDER.
Com uma precisão que espanta, Fidel detalha cada lugar desse estádio universitário, quando lhe informo de todos os preparativos para os Jogos Caribe. Percebe-se que conhece a Colina universitária como a palma de sua mão. Poderia dizer-se que sabe onde fica cada pedra dessa casa de altos estudos.
Também mostra interesse pela Aula Magna, pela organização da atividade pelo 162º aniversário do nascimento de José Martí, o concerto do pianista Frank Fernández e o lançamento da convocatória para comemorar os 70 anos de sua entrada na Universidade.
Na despedida “um abraço” e “amanhã a gente se vê”. E fico quase hipnotizado. Ainda meu sonho não acabou de tornar-se realidade.

FIDEL NÃO ESTÁ NO TELEFONE

Sexta-feira, 23 de janeiro. Está quase na hora de começar o encontro mensal do Conselho da FEU da UH, no Salão dos Mártires da Colina Universitária. Peço desculpas por não poder estar presente. Garanto aos colegas que nos próximos dias a UH será palco de uma notícia de alegria para nosso povo todo e de transcendência mundial.
Despeço-me de Henry, o secretário da União dos Jovens Comunistas (UJC) na Universidade, que alguns anos antes também teve a honra de conversar com o Comandante.
Aqueles que me vão levar até onde está Fidel são muito pontuais. Motoristas muito amáveis, que sabem reconhecer meu nervosismo e me acalmam, evidentemente solidarizados com a minha tensão, diante da perspectiva do meu primeiro encontro pessoal com Fidel, conversam sobre as nossas respectivas províncias: eles são de Santiago de Cuba e eu de Matanzas.
Pouco tempo depois, o carro pára e eles me soltam as palavras que eu estive esperando com desespero e contenção: “Você já está na casa do Comandante”. E eu saio pronto para viver o que poderá ser, com certeza, um dos meus instantes mais transcendentais. E afinal não será um instante. Porque falarei com Fidel durante mais de três horas.
Na porta do jardim espera Dália, sua esposa. Entrego-lhe uma flor que recebe com agradecimento especial e me acompanha até uma porta de vidro uns poucos metros mais à frente. Atrás, espera o Comandante.
“Randy — cumprimenta-me de forma jovial — vamos ver se afinal você é parecido com Echeverría...!”.
Começa a conversa desta tarde com Fidel. E já não está ao telefone, mas sim a poucos metros, como se fosse meu companheiro habitual nas conversas. Tento controlar minha emoção para poder guardar com precisão cada fato.
Mostra-me a compilação das suas Reflexões e refere-se a algumas delas, lendo ideias ou páginas inteiras. Conta-me que é uma coleção da qual foram editados uns 500 exemplares, que são acompanhados de um catálogo com desenhos do pintor Rancaño.
O tempo corre enquanto revemos muitos temas. Tento flagrar todos os detalhes de sua grandeza, não tiro os olhos da figura dele. Ele, convocando-me sempre ao conhecimento, conduz a conversa. Não deixo de pensar acerca da forma em que as circunstâncias da Sierra Maestra — da guerra — e os desafios atuais podem moldar tão especialmente um homem.
Comenta-me sobre astronomia, dos observatórios no mundo. Insiste na necessidade do desenvolvimento das ciências como a única forma em que a inteligência predomine, da relação dessas matérias com a economia e a qualidade da formação destes profissionais nas universidades.
Ainda, fala com muito entusiasmo da doação, ao Zoológico Nacional de Cuba, das espécies de animais trazidas da Namíbia e seu interesse na nova prática de transferência desses animais.
Persiste na sua chamada de atenção sobre a produção de alimentos para os seres humanos e animais e me mostra fotografias dos campos de plantas com as quais faz experimentação. Mostra-me várias sementes, falando do custo e da sua importância, da situação do combustível.
Sobre a mesa de trabalho há dezenas de papéis com notícias da imprensa recopiladas em uma pasta. Vejo de perto e verifico seu lendário interesse de estar informado de tudo, tanto dos acontecimentos nacionais como internacionais.
Detém-se, particularmente, na leitura de informações recentes, com uma infografia da cadeia Rusia Today, acerca de qual foi a nação que mais contribuiu para a derrota da Alemanha, em 1945. Durante anos, a maioria dos europeus reconhecia que tinha sido a URSS. Mais recentemente os dados se inverteram e se dá a proeminência aos EUA.
Mas também falamos dele, dos seus exercícios físicos diários, da alimentação correta. Continuo sem acreditar que eu estou ao lado do homem que mais fez, no sentido de atingir relações de justiça entre os homens, e descobria a maravilha de antever, a partir da recordação do passado, o que é o futuro.
Ainda ele tem bem gravado que eu sou da província de Matanzas. Não ia deixar passar isso tão fácil. Então me pede que lhe conte como funciona a prática dos esportes na minha cidade natal. Sem me dar tempo demais para pensar, inquire acerca das perspectivas do time de beisebol de Matanzas, sob a condução de Victor Mesa, e da alegria e a emotividade que consegue incutir no Campeonato Nacional desse esporte. Depois, refere-se a outros times presentes neste campeonato e ao meu desafio de ser de Matanzas mas viver na capital, onde quase todo mundo é fanático pela equipe local, os "Industriales". Rimos os dois. E eu admiro esse amor pelo esporte que ele sempre mostrou.
Depois, fala das revoluções que se estão produzindo contra a filosofia dominante e me conta que não se pode deixar de acreditar nelas, pois cada revolução acaba renascendo. Em um momento especial refere-se à Venezuela e fala com grande emoção de Hugo Chávez e de Nicolás Maduro.
Também comenta sobre a Nicarágua e o empenho de Daniel Ortega e sua esposa no desenvolvimento dessa pequena nação.
Voltando ao tema da nossa Universidade, mostro-lhe um catálogo e percorremos no mapa todos os lugares que ele frequentava: o café da Faculdade de Direito — conta-me alguns detalhes de sua construção e situação — outros lugares significativos para ele e me pede que lhe conte acerca das Faculdades da Colina e das que atualmente estão fora dela. Lembra dos tempos desafiadores de sua formação e dos encontros históricos com os estudantes universitários depois do triunfo revolucionário.
Ao mostrar-lhe uma série de desenhos dedicados a ele, pergunta-me quem os fez. Respondo que foi um estudante, também chamado Randy, com o sobrenome Pereira, que estuda no quarto ano de Comunicação. Então, ele sente interesse de saber onde nós imprimimos os cartazes e as camisetas, pois eu estava envergando uma com o símbolo dos Jogos Caribe.
Não vou partir sem deixar-lhe como recordação uma fotografia de Henry, atual secretário da UJC da Universidade, e outra da Indira, que trabalha na Direção de Extensão Universitária, aqueles dois jovens que lhe entregaram, em 2010, aquela fotografia onde aparece Fidel e que diz: “Aqui me tornei revolucionário...”· Leio a convocatória lançada por ocasião dos 70 anos de sua entrada na Universidade, comentando-lhe acerca dos convidados que virão e a forma em que temos concebido a atividade.
Também damos uma olhada em um exemplar do jornal Resumen Latinoamericano, dedicado aos Cinco. Empolgado, fita os olhos nos rostos de René, Fernando, Tony, Gerardo e Ramón, detalhando as características mais significativas de cada um dos Herois.
Quase que parece que estou saindo mas ele retoma a conversa sobre as novas formas de atacar algumas doenças, entre elas a diabetes, com a produção de alguns alimentos naturais; da relação de Cuba com a África, da contribuição à independência dos seus países, o fim do apartheid e da atual contribuição de médicos cubanos na luta contra o Ebola. E agradeço internamente que ainda não acabe este momento.
Finalmente, mostra-me algumas páginas de temas que está estudando neste momento. Entre elas, uma sobre o Banco Central de Cuba com os custos dos alimentos, metais básicos e preciosos, do açúcar, energia, taxas de juros.
Ele não me deixa ir sem que passe o DVD que eu levei como presente, com as imagens da recepção dos estudantes da Universidade aos estudantes estadunidenses do Cruzeiro Semestre no Mar, que visitaram nosso país no mês de dezembro.
Mostra interesse de saber como foi com nossos colegas estadunidenses e indaga acerca do programa de atividades. Ao olhar as imagens...não sei o porquê mas vejo um Fidel diferente, muito mais próximo do que pensava. A imagem de uns estudantes dos EUA sem camisa, que tinham escrito a palavra CUBA no peito, o fazem passar seu momento mais alegre e entusiástico.
Chega o instante de partir. Despedimo-nos primeiramente ao estilo tradicional. Depois ele quer conhecer um modo mais atual. Mostro-lhe então um jeito que nós ensaiamos muitas vezes com nossos parceiros, mais juvenil e diferente. Com muita insistência acabou aprendendo. E o praticou várias vezes até que finalmente nos dissemos “Até logo”.
Caminho novamente por minhas ruas e penso naquilo que acabei de viver. Levo com intensidade esse Fidel cheio de vida que conversou comigo, de forma animada e inteligente. Com a simplicidade que eu imaginava, mas com essa capacidade infinita de surpreender.
Penso em um escritor e acho uma frase que pode resumir o que penso. Se, a verdadeira grandeza, o homem só a pode conseguir no Reino deste mundo, não posso menos que ver a grandeza nele, que ultrapassou o escalão mais alto da espécie humana, para se transformar em lenda.
Vários dias depois, a emoção ainda faz meus olhos se encharcarem. Ainda o vejo em frente a mim, tão vivo, com muita energia e clareza, zombando com essa vitalidade daqueles que pretendem fazer crer que já não está. Continuo pensando nele coçando a barba, analisando sei lá quantas coisas.
Ele não deixou de ser estudante universitário. Em um ambiente familiar e cordial, com seu olhar mais além das aparências, aproximou-me do seu infinito caudal de inteligência. E eu quase fico espantado, ao ver o muito que me resta por aprender e estudar. Agradeço-lhe então por me ter revelado essa verdade e munir-me de um guia para entender como conduzir-me pelo inexplorado, com curiosidade e sensatez.
Ter ocupado boa parte do tempo dele é a maior honra que já recebi. Pela nossa FEU e nossa Universidade de Havana é que vivi essa oportunidade excepcional. Foram várias noites sem dormir por causa da alegria, dos desejos impacientes de voltar a conversar com ele...
Implícito em tudo, mais além do que possa dizer, vai o ensinamento da humildade, da confiança em nós, no futuro da Pátria. A certeza de que este encontro é a continuidade de mais deveres, de mais compromisso.
Fidel continua em uma marcha constante, ao compasso de nosso tempo, como símbolo imperecível, como eterno jovem universitário. Não posso flagrar tudo em palavras pois ainda estou acreditando que isso foi um sonho. A essência dos milagres é difícil de apanhar, ainda que tentemos muito. 
Fidel é um fora de série.






Descarregue essas e outras fotos em alta resolução no Flickr do CUBADEBATE
Retirado de GRANMA

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