segunda-feira, 27 de abril de 2015

Fidel Castro, internacionalista solidário

O pai da Revolução Cubana estendeu uma mão generosa aos povos necessitados e colocou a solidariedade e a integração no centro da política exterior de Cuba.

Fidel Castro ao lado do líder Amílcar Cabral  (Guiné-Bissau)
Por Salim Lamrani no Al Mayadeen - Tradução do Diário Liberdade

Baseando-se na máxima de José Martí, "Pátria é humanidade", Fidel Castro fez da solidariedade internacionalista um pilar essencial da política exterior de Cuba. Assim, Havana ofereceu apoio a muitos movimentos revolucionários e independentistas na América Latina, África e Ásia. A Argélia foi a primeira que se beneficiou da ajuda cubana em dezembro de 1961. Enquanto lutava contra o colonialismo francês, Fidel Castro respondeu ao chamado da Frente de Libertação Nacional e fez chegar armas aos independentistas [1].

Do mesmo modo, Cuba desempenhou um papel chave na luta contra o Apartheid e enviou cerca de 300.000 soldados a Angola entre 1975 e 1988 para fazer frente à agressão do exército supremacista da África do Sul. O elemento decisivo que pôs fim ao regime racista apoiado pelas potências ocidentais foi a estrepitosa derrota do exército sul-africano em Cuito Cuanavale, no sudeste de Angola, contra as tropas cubanas em janeiro de 1988. No discurso que pronunciou em Matanzas, Cuba, em 1991, Nelson Mandela rendeu tributo a Fidel Castro:

Nelson Mandela e Fidel Castro
"Desde os seus dias iniciais, a Revolução Cubana tem sido uma fonte de inspiração para todos os povos amantes da liberdade. O povo cubano ocupa um lugar especial no coração dos povos da África. Os internacionalistas cubanos fizeram uma contribuição à independência, à liberdade e à justiça na África que não tem paralelo pelos princípios e o desinteresse que a caracterizam. É muito o que podemos aprender de sua experiência. De modo particular nos comove a afirmação do vínculo histórico com o continente africano e seus povos. Seu invariável compromisso com a erradicação sistemática do racismo não tem paralelo. Somos conscientes da grande dívida que há com o povo de Cuba. Que outro país pode mostrar uma história de maior desinteresse do que a que Cuba demonstrou em suas relações com a África [...]? Sem a derrota infligida em Cuito Cuanavale nossas organizações não teriam sido legalizadas! A derrota do exército racista em Cuito Cuanavale me deu a oportunidade de estar hoje aqui com vocês! Cuito Cuanavale é um marco na história da luta pela libertação da África austral! [2]".

Salim Lamrani
Thenjiwe Mtintso, embaixadora da África do Sul em Cuba, lembrou da verdade histórica a propósito do compromisso de Cuba na África: "Hoje a África do Sul tem muitos amigos novos. Ontem estes amigos se referiam a nossos líderes e a nossos combatentes como terroristas e nos perseguiam desde os seus países ao mesmo tempo em que apoiavam a África do Sul do Apartheid. Esses mesmos amigos hoje querem que nós denunciemos e isolemos Cuba. Nossa resposta é muito simples, é o sangue dos mártires cubanos e não desses amigos o que corre profundamente pela terra africana e nutre a árvore da liberdade em nossa Pátria" [3].

Henry Kissinger, secretário de Estado dos Estados Unidos de 1973 a 1977,planejou bombardear Cuba após sua intervenção na África. "Se decidirmos usar a força militar devemos conseguir a vitória. Não podemos fazer as coisas pela metade", declarou ao general George Brow do Estado Maior em 24 de março de 1976. Durante seu encontro com o presidente Gerald Ford, Kissinger se mostrou mais preciso: "Creio que vamos ter de esmagar Castro. Mas provavelmente não poderemos atuar antes das eleições [presidenciais de 1976].". "Estou de acordo", replicou o presidente Ford [4]. Kissinger desejava a qualquer custo proteger o regime do Apartheid: "Se os cubanos destroem a Rodésia, a Namíbia será a próxima na lista e depois a África do Sul. Se realizam um movimento para a Namíbia ou a Rodésia, teremos que pulverizá-los". Secretamente elaborado pelo Grupo de Ações Especiais de Washington, o plano previa bombardeios estratégicos, minar os portos e uma quarentena de Cuba. Não obstante, apesar dessa hostilidade, Kissinger não pôde conter sua admiração ao líder histórico da Revolução Cubana. Segundo ele, "era provavelmente o mais genuíno líder revolucionário então no poder" [5].

De fato, durante décadas Cuba foi o santuário dos revolucionários do mundo inteiro, os quais se formaram e se aprimoraram na ilha. Fidel Castro também acolheu os exilados políticos de todos os horizontes perseguidos pelas ditaduras militares apoiadas por Washington. A Ilha do Caribe também se converteu em refúgio dos militantes políticos perseguidos nos Estados Unidos, como alguns membros dos Panteras Negras [6].

Fidel Castro sempre fez da solidariedade humanitária internacional um pilar fundamental da política exterior de Cuba. Assim, em 1960, inclusive antes do desenvolvimento do seu serviço médico e mesmo após ter perdido 3.000 médicos (que decidiram emigrar para os Estados Unidos após o triunfo da Revolução de 1959) dos 6.000 presentes na ilha, Cuba ofereceu sua ajuda ao Chile após o terremoto que destruiu o país. Em 1963 o Governo de Havana enviou sua primeira brigada médica composta por 55 profissionais à Argélia para ajudar à jovem nação independente a enfrentar uma grave crise sanitária. Desde então, Cuba tem estendido sua solidariedade ao resto do mundo, particularmente à América Latina, África e Ásia [7].

Hoje, cerca de 51.000 profissionais da saúde cubanos, entre eles 25.500 médicos dos quais 65% são mulheres, trabalham em 66 países do mundo. Desde o triunfo da Revolução, Cuba realizou cerca de 600.000 missões em 158 países, com a participação de 326.000 profissionais da saúde. Desde 1959 os médicos realizaram mais de 1,2 milhão de consultas médicas, operaram 2,3 milhões de partos, efetuaram oito milhões de operações cirúrgicas e vacinaram mais de 12 milhões de mulheres gestantes e crianças [8].

Por outro lado, Cuba formou várias gerações de médicos de todo o mundo. No total, a Ilha formou 38.920 profissionais da saúde de 121 países da América Latina, África e Ásia, particularmente por meio da Escola Latino-americana de Medicina (ELAM) fundada em 1999. Além dos médicos que estudaram na ELAM em Cuba (cerca de 10.000 graduados a cada ano), Havana contribui para a formação de 29.580 estudantes de medicina em 10 países do mundo [9].

"Operación Milagro" é emblemática da política solidária de Havana. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), há atualmente cerca de 285 milhões de pessoas vítimas de deficiência visual no mundo, entre elas 39 milhões de cegos e 246 milhões que apresentam uma diminuição da acuidade visual. Quase 90% vivem em países do Terceiro Mundo. Cerca de 80% das deficiências visuais são curáveis, aponta a organização, e agrega que "a catarata segue sendo a principal causa da cegueira". Essas doenças oculares afetam em primeiro lugar (65%) a pessoas com mais de 50 anos (20% da população mundial), uma porcentagem que crescerá com o envelhecimento da população, mas também a 19 milhões de crianças [10].

Diante dessa constatação, Fidel Castro decidiu lançar em julho de 2004 uma ampla campanha humanitária continental sob o nome de Operación Milagro com a ajuda da Venezuela. Consiste em operar gratuitamente os latino-americanos pobres que sofrem cataratas e outras doenças oculares, mas que se encontram na impossibilidade de financiar uma operação que custa em 5.000 e 10.000 dólares conforme o país. Esta missão humanitária se estendeu a outras latitudes (África e Ásia). A Operación Milagro inclui a participação de 165 instituições cubanas. Dispõe de 49 centros oftalmológicos em 15 países da América Latina e do Caribe (Cuba, Venezuela, Equador, Haiti, Honduras, Panamá, Guatemala, São Vicente e Granadinas, Guiana, Paraguai, Granada, Nicarágua e Uruguai) [11]. Desde 2004, cerca de três milhões de pessoas de 35 países recuperaram a vista [12].

A respeito da educação, Cuba elaborou o programa de alfabetização "Yo, sí puedo" em 2003 proposto pelo próprio Fidel Castro, com a finalidade de erradicar o analfabetismo no mundo. Segundo a Unesco, há no mundo 796 milhões de adultos analfabetos, ou seja, 17% da população mundial. Mais de 98% se encontra nos países do Terceiro Mundo. Dois terços são mulheres. A Unesco lançou então um chamado para reduzir em 50% o número de analfabetos para 2015. O organismo da ONU aponta que os progressos realizados neste campo "foram no melhor dos casos decepcionantes e no pior esporádicos". Segundo a Unesco, "para reverter esta tendência é necessário que os governos do mundo atuem com determinação". Não obstante, a Unesco revela uma exceção: a América Latina e o Caribe. Esta exceção se deve em parte ao programa "Yo, sí puedo":

"O programa 'Yo, sí puedo', que o Governo cubano criou em 2003, teve amplos resultados [...]. Aplicado em 12 dos 19 países da América Latina em 2008, faz parte de estratégias mais amplas a favor da alfabetização universal no Estado Plurinacional da Bolívia, no Equador, na Nicarágua, no Panamá e na República Bolivariana da Venezuela" [13].

Baseado na filosofia de José Martí, resumida na seguinte frase: "Todo homem tem direito a se educar e em troca contribuir para a educação dos demais", o Instituto Pedagógico Latino-americano e Caribenho de Cuba lançou o programa "Yo, sí puedo" em 2003, destinado a alfabetizar os adultos iletrados. A aquisição das capacidades de leitura, escrita e cálculos matemáticos é indispensável para desfrutar de uma cidadania plena. Constitui no primeiro baluarte contra a exclusão e a pobreza e leva à realização do que Martí chamou de "a plena dignidade do homem". A Unesco ressalta que "a educação salva vidas: a taxa de mortalidade infantil diminui quanto mais se eleva o nível escolar da mãe". Assim, se todas as mulheres concluíssem o ensino secundário 1,8 milhões de crianças seriam salvas a cada ano. Do mesmo modo a saúde das crianças estaria mais protegida: "É menos provável que as crianças cuja mãe tem escolaridade manifestem um atraso de crescimento ou tenham um peso abaixo do normal" [14].

O programa "Yo, sí puedo" foi aplicado com êxito na Venezuela, onde mais de 1,5 milhões de pessoas foram alfabetizadas, na Bolívia, no Equador e na Nicarágua, que são as únicas nações latino-americanas que se livraram do analfabetismo na última década, segundo a Unesco. Também é utilizado em outros países do continente e do mundo, como a Nova Zelândia, e aplicada em vários idiomas, entre eles o francês e os idiomas indígenas (guaraní, maori).

O programa "Yo, sí puedo" é utilizado também na Espanha. A cidade de Sevilha solicitou os serviços dos professores cubanos, sob a coordenação do Professor Carlos M. Molina Soto, para ensinar seus cidadãos a ler e a escrever [15]. Após um estudo realizado pela prefeitura se descobriu que 34.000 dos 700.000 habitantes da capital andaluza eram totalmente analfabetos. Em dois anos 1.100 adultos se alfabetizaram nos 30 centros de alfabetização que foram abertos na cidade. Outros municípios da Espanha, que conta com 2 milhões de analfabetos, estudam a possibilidade de aplicar o método cubano em seu território [16].

Na Austrália o método de alfabetização é utilizado para as populações aborígenes – 60% são analfabetos funcionais – que aprendem a ler e a escrever em três meses. Além da leitura, da escrita e da álgebra básica, Cuba lhes oferece a possibilidade de aprender a usar as novas tecnologias [17]. No entanto, a Austrália ocupa o segundo lugar mundial em termos de desenvolvimento humano, atrás apenas da Noruega [18].

O programa "Yo, sí puedo" recebeu o Prêmio de Alfabetização Rei Sejonh da Unesco em 2006 por sua contribuição à educação da humanidade. Irina Bokova, diretora-geral da organização da ONU, elogiou o método, ressaltando seu caráter exemplar de cooperação Sul-Sul [19]. De fato, desde 2003, o programa permitiu que nove milhões de pessoas de cinco continentes diferentes aprendessem a ler e a escrever [20].

Em termos de solidariedade, Fidel Castro fez de Cuba o modelo a ser seguido, demonstrando que é possível contribuir para melhorar o destino dos mais desfavorecidos do planeta. Ao colocar a generosidade para com os mais humildes no centro de sua ação internacional, o líder da Revolução Cubana se converteu no símbolo do internacionalismo desinteressado.

Notas:

[1] Cuba Defensa, «Misiones militares internacionalistas cumplidas por las Fuerzas Armadas Revolucionarias de la República de Cuba», 2014. http://www.cubadefensa.cu/?q=misiones-militares (site consultado em 23 de fevereiro de 2015)

[2] Salim Lamrani, Cuba. Ce que les médias ne vous diront jamais, Paris, Editions Estrella, 2009, prólogo.

[3] Piero Gleijeses, «Cuito Cuanavale: batalla que terminó con el Apartheid», Cubadebate, 23 de março de 2013.

[4] The National Security Archive, « Kissinger Considered Attack on Cuba Following Angola Incursion", 1 de outubro de 2014, George Washington University. http://www2.gwu.edu/~nsarchiv/NSAEBB/NSAEBB487/(site consultado em 21 de fevereiro de  2015).

[5] Henry Kissinger, Years of Renewal, New York, 1999, p.785 in Piero Gleijeses, "Carta a Obama",Cubadebate, 3 de fevereiro de 2014.

[6] The Guardian, "New Jersey hopes Cuba-US relations thaw will help extradite former Black Panther", 18 de dezembro de 2014.

[7] Roberto Morales, «África está urgida de la solidaridad internacional»,  Cuba Debate, 12 de setembro de 2014. http://www.cubadebate.cu/especiales/2014/09/13/africa-esta-urgida-de-la-solidaridad-internacional/ (site consultado em 14 de septiembre de 2014).

[8] Ibid.

[9] Ibid.

[10] Organisation mondiale de la santé, «Cécité et déficience visuelle», Aide-Mémoire n°282, outubro de 2011. http://www.who.int/mediacentre/factsheets/fs282/fr/index.html (site consultado em 15 de fevereiro de 2013).

[11] Ministerio de Relaciones Exteriores, «Celebra Operación Milagro cubana en Guatemala», República de Cuba, 15 de novembro de 2010. http://www.cubaminrex.cu/Cooperacion/2010/celebra1.html (site consultado em 15 de fevereiro de 2013); Operación Milagro, « ¿Qué es la Operación Milagro? ». http://www.operacionmilagro.org.ar/ (site consultado em 15 de fevereiro de 2013).

[12] Cubadebate, «Más de 3 millones de beneficiados con Operación Milagro en diez años», 1 de julho de 2014. http://www.cubadebate.cu/noticias/2014/07/01/mas-de-tres-millones-de-beneficiados-con-operacion-milagro-en-diez-anos/#.VOsmsWP7uu4 (site consultado em 23 de fevereiro de 2015).

[13] Ibid., p. 37, 76.

[14] Ibid., p. 39.

[15] Correspondência con o Profesor Carlos M. Molina Soto, 17 de novembro de 2011.

[16] Antonio Rodrigo Torrijos, "Torrijos pregunta en el pleno del Ayuntamiento sobre el futuro de Yo, sí puedo". Al pleno del Ayuntamiento de Sevilla", 15 de setembro de 2011. Veja também Cubainformación, « Alfabetización cubana en Sevilla », 7 de fevereiro de 2008. http://www.cubainformacion.tv/index.php?option=com_content&task=view&id=3286&Itemid=86 (site consultado em 12 de abril de 2008).

[17] EFE, « Un método desarrollado en Cuba enseña a leer y a escribir a aborígenes australianos », 1 de julho de 2012.

[18] Programme des Nations-unies pour le développement, « Indice de développement humain IDH, classement 2011 », 2011. http://hdr.undp.org/fr/statistiques/ (site consultado em 15 de fevereiro de 2013).

[19] Granma, «Reconoce la UNESCO el método cubano de alfabetización», 25 de maio de 2011. http://www.granma.cubaweb.cu/2011/05/25/cubamundo/artic02.html (site consultado em 15 de dezembro de 2011).

[20] Granma, «Nueve millones de alfabetizados con el programa cubano Yo, sí puedo», 21 de janeiro de 2015. http://www.granma.cu/cuba/2015-01-21/nueve-millones-de-alfabetizados-con-el-programa-cubano-yo-si-puedo (site consultado em 6 de março de 2015).


Salim Lamrani é doutor em Estudos Ibéricos e Latino-americanos da Universidade Paris Sorbonne-Paris IV, professor-titular da Universidade de la Reunión e jornalista, especialista nas relações entre Cuba e Estados Unidos.

Retirado de SOLIDÁRIOS

Fidel Castro, arquiteto da soberania nacional de Cuba

O líder revolucionário realizou o sonho do Apóstolo e Herói Nacional José Martí de uma Cuba independente e devolveu sua dignidade ao povo da Ilha.


Por Salim Lamrani no Al Mayadeen - Tradução do Diário Liberdade

O triunfo da Revolução em Cuba em 1º de janeiro de 1959 gerou a mais importante transformação social da história da América Latina. Ao derrubar a ordem e as estruturas estabelecidas, Fidel Castro pôs em causa o poder da oligarquia batistiana e dos conglomerados econômicos e colocou o ser humano no centro do novo projeto de sociedade dedicando os recursos nacionais ao povo.

A principal conquista da Revolução cubana é a independência e a soberania tão perseguidas pelo povo cubano desde o século XIX e pelas quais José Martí sacrificou sua vida em 1895. Ao por fim a mais de 70 anos de domínio dos EUA sobre a Ilha, Fidel devolveu aos cubanos sua dignidade perdida durante a intervenção estadunidense na guerra de independência de Cuba em 1898 e a ocupação militar que havia transformado a Ilha em simples protetorado. O presidente John F. Kennedy não se equivocou: "Fidel Castro faz parte do legado de Bolívar. Deveríamos ter dado ao fogoso e jovem rebelde umas boas-vindas mais calorosas na hora de seu triunfo"[1].

Para entender a importância simbólica de Fidel Castro na história de Cuba é necessário remontar ao início do século XIX, no momento em que a ilha começou a suscitar as pretensões do "vizinho pujante e ambicioso" [2]. De fato, Cuba é uma das mais antigas inquietudes da política externa dos Estados Unidos. Em 1805, Thomas Jefferson evocou a importância da ilha enfatizando que sua "posse [era] necessária para assegurar a defesa da Luisiana e da Florida pois [era] a chave do Golfo do México. Para os Estados Unidos a conquista seria fácil" [3]. Em 1823, John Quincy Adams, então secretário de Estado e futuro presidente dos Estados Unidos, aludiu ao tema da anexação de Cuba, elaborando a famosa teoria da "fruta madura": "Cuba, separada pela força de sua própria conexão desnaturalizada com a Espanha e incapaz de se sustentar por ela mesma, terá necessariamente que gravitar em torno da União Norte-Americana e somente a ela" [4]. Assim, durante o século XX, os Estados Unidos tentaram comprar Cuba da Espanha ao menos seis vezes.

Salim Lamrani
Durante a Primeira Guerra de Independência, de 1868 a 1878, os insurgentes cubanos, afligidos por profundas divisões internas, foram derrotados pelo exército espanhol. Os Estados Unidos deram seu apoio à Espanha vendendo-lhe as armas mais modernas e se opôs resolutamente aos independentistas, perseguindo os exilados cubanos que tentavam dar sua contribuição à luta armada [5]. Em 29 de outubro de 1872, o secretário de Estado Hamilton Fish reconheceu Daniel Edgar Sickles, então embaixador estadunidense em Madri, como participante de seus "presságios de êxito para a Espanha na supressão da revolta". Washington, opositor da independência cubana, desejava tomar posse da Ilha [6].

Durante a Segunda Guerra de Independência, de 1895 a 1898, os revolucionários cubanos, unidos em torno de seu líder José Martí, tiveram que enfrentar outra vez a hostilidade dos Estados Unidos, que ofeceram seu apoio à Espanha vendendo-lhe armas e prendendo os patriotas cubanos em seu território que tentavam ajudar os insurgentes.

Em 1898, apesar de sua superioridade material, a Espanha estava a bordo do abismo, vencida no campo de batalha pelos independentistas cubanos. Em uma carta enviada ao embaixador dos EUA em Madri Stewart Woodford, datada de 9 de março de 1898, o presidente estadunidense William McKinley lhe escreveu que a "derrota" da Espanha era "iminente". "[Os espanhóis] sabem que Cuba está perdida". Segundo ele, "se os Estados Unidos querem Cuba, devem obtê-la pela conquista" [7].

Em abril de 1898, após a misteriosa explosão do navio de guerra estadunidense The Maine na baía de Havana, o presidente McKinley solicitou a permissão do Congresso para intervir militarmente em Cuba e impedir que a ilha conseguisse sua independência. Vários parlamentares estadunidenses denunciaram uma guerra de conquista. John W. Daniel, senador democrata de Virgínia, acusou o Governo de querer intervir para evitar uma derrota dos espanhóis: "Quando chegou a hora mais favorável para uma vitória revolucionária e menos vantajosa para a Espanha, [...] se atribui ao Congresso que entregue ao presidente o exército dos Estados Unidos para impor pela força um armistício entre duas partes, quando uma das duas já depôs as armas" [8]. Assim, em três meses, os Estados Unidos tomaram o controle do país e impuseram um tratato de paz à Espanha, do qual os cubanos foram excluídos, destroçando seu anseio de independência.

De 1898 a 1902, Washington ocupou Cuba e obrigou a Assembleia Constituinte a incluir a emenda Platt na nova Carta Magna, sob pena de prorrogar indefinidamente a ocupação militar. O texto redigido pelo senador Orville H. Platt proibia Cuba de assinar qualquer acordo com um terceiro país ou de contrair uma dívida com outra nação. Também dava aos Estados Unidos o direito de intervir a todo o momento nos assuntos internos de Cuba e compelia a ilha a arrendar indefinidamente a Washington a base naval de Guantánamo [9]. Em uma carta de 1901, o general Leonard Wood, então governador militar de Cuba, felicitou ao presidente McKinley: "Desde já, sob a emenda Platt, não há independência – ou pouca – para Cuba e a única coisa importante agora é buscar a anexação" [10].

De 1902 a 1958, Cuba tinha o status de República neocolonial, totalmente dependente do poderoso vizinho. Uma livraria não se equivocou quando difundiu em 1902 um mapa da ilha sob o título: "Nossa nova colônia: Cuba" [11]. O Tratado de Reciprocidade Comercial imposto a Cuba em 1902 constituiu de fato uma anexação econômica [12].

Os Estados Unidos intervieram militarmente em Cuba em 1906 e instalaram o governador Charles E. Mangoon até 1909, lembrando aos cubanos quem era o verdadeiro dono da ilha [13]. Em 1912, Washington se intrometeu outro vez nos assuntos internos de Cuba e mandou suas forças armadas, após a revolta dos Veteranos de Cor, independentistas afastados do poder. O encarregado de negócios estadunidense Hugh S. Gibson explicou as razões desse levante: "Os cubanos que pegaram em armas pela causa espanhola [...] ocupam agora os cargos públicos" [14]. Os Estados Unidos haviam tomado de fato a precaução – lembrava Gibson – de colocar em postos chave os "que haviam pegado em armas contra a causa da independência cubana" [15].

A emenda Platt, que legalizava o intervencionismo estadunidense, colocava o governo cubano em uma situação "de inferioridade humilhante por meio de um desprezo de seus direitos nacionais, causando seu desprestígio no interior e no exterior do país" [16]. Tais foram as palavras do presidente cubano José Miguel Gómez. Este apêndice legislativo não deixava de recordar ao povo cubano que o destino de sua pátria se subordinava aos interesses da potência neocolonial. Assim, em 1917, o presidente Woodrow Wilson enviou vários navios de guerra a Santiago de Cuba e Camagüey quando alguns insurgentes tomaram as armas, sob a liderança de José Miguel Gómez, contra o presidente Manuel García Menocal, que desejava manter-se no poder por meio de uma fraude massiva [17].

Temendo uma reminiscência da revolta de 1917 durante as eleições presidenciais de 1920, Washington impôs ao presidente Menocal a presença do general Enoch H. Crowder, o qual se encarregou de elaborar as novas leis eleitorais e organizar a eleição [18]. Menocal fez uma ressalva ao presidente estadunidense: uma supervisão das eleições cubanas por parte de Washington "feriria o orgulho cubano [e seria] uma humilhação" para toda a nação[19]. Woodrow Wilson rechaçou com desprezo a observação e nomeou o Procônsul Crowder presidente do Comitê Eleitoral.

Quando, em dezembro de 1920, o presidente Wilson enviou Crowder a Cuba para fazer frente à grave crise "política e financeira", devida em parte ao desmoronamento da cotização do açúcar, e salvar os investimentos estadunidenses de uma quebra da economia cubana, nem sequer informou ao presidente Menocal [20]. Diante dos protestos deste, a resposta de Washington foi mordaz e lembrou a Havana, em termos bem diferentes dos costumes da diplomacia, quem era o verdadeiro dono da ilha: "O presidente dos Estados Unidos não considera necessário obter a autorização prévia do presidente de Cuba para enviar um representante especial" [21].

Em 1933, quando o movimento insurrecional que lançaram os estudantes contra a ditadura militar de Gerardo Machado deu um giro revolucionário sob o impulso de Antonio Guiteras, Washington interveio outra vez para impor um sargento estenógrafo chamado Fulgencio Batista. O governo "pentárquico" que Ramón Grau San Martín dirigiu, que empreendeu consideráveis reformas sociais, não foi do agrado dos Estados Unidos. De fato, sob a égide de Guiteras, esse criou tribunais para sancionar os crimes que foram cometidos sob Machado, convocou eleições para 22 de abril de 1934, convocou uma Assembleia Constituinte para 20 de maio de 1934, outorgou a autonomia às universidades, baixou o preço dos artigos de primeira necessidade, deu o direito ao voto às mulheres, limitou a jornada de trabalho a oito horas, criou um ministério do Trabalho, reduziu as tarifas de gás e eletricidade, acabou com o monopólio das empresas estadunidenses, impôs uma moratória temporária sobre a dívida e, sobretudo, nacionalizou a Companhia Cubana de Eletricidade, filial da American Bond and Foreign Power Company [22].

O embaixador Sumner Welles indicou o caminho a seguir: "Nenhum governo pode sobreviver aqui por um período prolongado sem o reconhecimento dos Estados Unidos e uma falta de reconhecimento deixará Cuba em uma situação ainda mais caótica e anárquica" [23]. Roosevelt não reconheceu o novo poder e enviou vários navios de guerra à ilha. As consequências foram imediatas: o Governo revolucionário foi derrotado por Batista – havia durado apenas 127 dias –, o qual instalou na presidência o fantoche Carlos Mendieta, preferindo governador por trás das cortinas. 

Welles expressou sua satisfação. Sua ação havia sido frutífera e o explicou em uma carta ao Departamento de Estado: "Estou convencido de que os cubanos nunca poderão se autogovernar até que estejam forçados a realizar que devem assumir suas próprias responsabilidades". Evidentemente, Washington se encarregaria de tal tarefa, impondo o seu homem forte [24].

Batista, submisso aos Estados Unidos, teve o poder real de 1933 a 1959, exceto no período 1944-1952. Seu golpe de Estado de março de 1952 contra o presidente Carlos Prío Socarrás foi recebido calorosamente em Washington: "Batista é fundamentalmente amistoso com os Estados Unidos e seu governo sem dúvida não será pior que o de Prío e inclusive provavelmente melhor" [25]. O sargento, convertido em general, se comprometeu a proteger os interesses econômicos dos Estados Unidos em detrimento dos do povo cubano, do que se felicitou o embaixador Beaulac: "As declarações do general Batista relativas ao capital privado foram excelentes" [26].

Fidel Castro, em nome do povo cubano, se opôs imediatamente à ditadura militar e lançou um movimento insurrecional nas montanhas da Sierra Maestra. O líder do Movimiento 26 de Julio, retomando a tocha de José Martí, se tornou muito popular entre a juventude cubana, que via nele o redentor de uma Cuba colonizada e humilhada e o símbolo da resistência à hegemonia estadunidense. Durante seu discurso em Santiago de Cuba em 1º de janeiro de 1959, após a fuga de Batista, Fidel Castro advertiu a Washington de que dali adiante Cuba seria livre e soberana: "Desta vez, afortunadamente para Cuba, a Revolução chegará de verdade ao poder. Não será como em 95, quando vieram os americanos que se fizeram donos disto [...]. Nem ladrões, nem traidores, nem intervencionistas. Esta é a Revolução" [27].

John F. Kennedy foi um dos poucos dirigentes dos Estados Unidos que compreendeu a importância histórica de Fidel Castro. O explicou em um discurso de 1960 e reconheceu o apoio de Washington a Batista: "em vez de estender uma mão amistosa ao povo desesperado de Cuba, quase toda a nossa ajuda tomava a forma de assistência militar – assistência que simplesmente reforçou a ditadura de Batista, uma assistência que fracassou completamente em melhorar o bem-estar do povo cubano" [28].

A esse respeito, acrescentou:

Usamos a influência de nosso governo para promover os interesses e aumentar os benefícios das empresas americanas privadas, que dominavam a economia da ilha. No início de 1959, as empresas econômicas possuíam cerca de 40% das terras açucareiras cubanas, talvez todas as fazendas de gado, 90% das minas e concessões mineiras, 80% dos transportes e quase toda a indústria petroleira [...]. Nossa ação dava muitas vezes a impressão de que nosso país estava mais interessado em tirar dinheiro do povo cubano do que em ajudá-lo a edificar uma economia autônoma, forte e diversificada. Era impossível não suscitar a animosidade do povo cubano [29].

A advertência de uma revolução radical em Cuba era inevitável pois os Estados Unidos, por sua estratégia de dominação, negou aos cubanos toda a perspectiva de emancipação verdadeira, de independência política e de progresso econômico e social. O embaixador Phillip Bonsal evocou esta realidade: "Na Cuba pré-Castro, a presença americana esmagadora em termos geopolíticos era uma permanente lembrança da natureza imperfeita da soberania cubana [...]. Suscitava repúdio já que se considerava uma transgressão intolerável da independência e da dignidade do povo cubano" [30]. A intromissão constante do Vizinho do Norte nos assuntos internos da ilha havia danificado profundamente o sentimento de orgulho nacional dos cubanos. O último objetivo da Revolução era recuperar a soberania da nação e pôr fim à dependência dos Estados Unidos. Tal foi a missão de Fidel Castro.

Fidel Castro tomou o poder e pôs fim à tutela estadunidense que havia arrasado o país durante mais de sessenta anos. A república neocolonial se desintegrou com a fuga de Batista. O triunfo da Revolução Cubana em 1959 permitiu ao povo cubano realizar finalmente o sonho de uma pátria livre e soberana, fazendo de Fidel Castro o emblema da dignidade nacional e continental que soube se opor aos planos hegemônicos de Washington na América Latina. Se acabou então a era do complexo "plattista", em virtude do qual havia que buscar soluções estadunidenses aos problemas cubanos, com a chegada de Fidel Castro ao poder.

Notas:

[1] Luis Báez, "Absuelto por la Historia", Granma, 11 de março de 2014. http://www.granma.cu/granmad/secciones/fidel/ (site consultado em 23 de fevereiro de 2015).

[2] José Martí, «El Congreso de Washington», La Nación, 2 de novembro de 1889.

[3] Antonio Beltrán Hernández, L'Empire de la liberté, París, Editions Syllepse, 2002, p. 78.

[4] Philip S. Foner, Historia de Cuba y sus relaciones con Estados Unidos, La Havane, Editorial de Ciencias Sociales, tome I, 1973, p. 157.

[5] Philip S. Foner, La Guerra hispano/cubano/americana y el nacimiento del imperialismo norteamericano, op. cit., Volumen 1, p.16-17.

[6] Hamilton Fish, «Mr. Fish to Mr. Cushing», 6 de fevereiro de 1874, FRUS, 7 de dezembro de 1874, p. 859.

[7] Stewart L. Woodford, «Mr. Woodford to the President», 9 de março de 1898, FRUS, 6 de dezembro de 1898, p. 682-84.

[8] Philip S. Foner, La Guerra hispano/cubano/americana y el nacimiento del imperialismo norteamericano, op. cit., Volumen 1, p. 337.

[9] C. I. Bevans, Treaties and Other International Agreements of the United States of America, 1776-1949 (Washington D. C.: United States Government Printing Office, 1971), p. 1116-17.

[10] Fidel Castro Ruz, «El imperio y la isla independiente, primera parte», Cuba Debate, 14 de agosto de 2007. http://www.cubadebate.cu/reflexiones-fidel/2007/08/14/imperio-isla-independiente-primera-parte/ (site consultado em 15 de agosto de 2009).

[11] Robert Merle, Moncada : premier combat de Fidel Castro, Paris, Robert Laffon, 1965, p. 34.

[12] Tomas Estrada Palma,  « Message of Tomás Estrada Palma, President of the Republic of Cuba, to the Congress of Cuba», 6 de abril de 1903, FRUS, 7 de dezembro de 1903, p. 356-57.

[13] Edwin V. Morgan, «Minister Morgan to the Secretary of State», 13 de outubro de 1906, FRUS, 1909, p. 489.

[14] Hugh S. Gibson, «Veteranista Agitation – Attitude of the United States. The American Chargé d'Affaires to the Secretary of State», 10 de novembro de 1911, FRUS, (Washington Government Printing Office, 1919), p. 236-37.

[15] Hugh S. Gibson, «Veteranista Agitation – Attitude of the United States. The American Chargé d'Affaires to the Secretary of State», 16 de novembro de 1911, FRUS, 1919, p. 237.

[16] José Miguel Gómez, « he President of Cuba to the President», 26 de maio de 1912, FRUS, 1919, p. 248.

[17] Robert Lansing, «The Secretary of State to Minister Gonzales», 13 de fevereiro de 1917, FRUS, 1926, p. 356 ; William E. Gonzales, «Minister Gonzales to the Secretary of State», 15 de fevereiro de 1917, FRUS, 1926, p. 359 ; William E. Gonzales, «Minister Gonzales to the Secretary of State», 27 de fevereiro de 1917, FRUS, 1926, p. 369.

[18] Robert Lansing, «The Secretary of State to Minister Gonzales», 10 de março de 1917, FRUS, 1926), p. 382 ; Frank Polk, «The Acting Secretary of State to the Chargé in Cuba (Bingham)», 15 de janeiro de 1919, FRUS, Volume II (Washington Government Printing Office, 1934), p. 1-2.

[19] Rutherfurd Bingham, «The Chargé in Cuba (Bingham) to the Acting Secretary of State», 18 de janeiro de 1919, FRUS, 1934, p. 2. Véase el informe complete de Enoch H. Crowder sobre su estancia en Cuba: Enoch H. Crowder, «General Enoch H. Crowder to the Secretary of State», 30 de Agosto de 1919, FRUS, 1934, p. 29-77.

[20] Norman H. Davis, «The Acting Secretary of State to the Judge Advocate General, War Department (Crowder) », 31 de dezembro de 1920, FRUS, 1936, p. 41-43.

[21] Norman H. Davis, «The Acting Secretary of State to the Minister in Cuba (Long) », 4 de janeiro de 1921, FRUS, 1936, p. 671.

[22] Salim Lamrani, Cuba. Ce que les médias ne vous diront jamais, op. cit., p. 224.

[23] Sumner Welles, «The Ambassador in Cuba (Welles) to the Secretary of State», 10 de setembro de 1933, FRUS, 1952, p. 417.

[24] Sumner Welles, «The Ambassador in Cuba (Welles) to the Secretary of State», 25 de setembro de 1933, FRUS, 1952, p. 458.

[25] Edward G. Miller Jr., «Secretary Staff Meetings», 11 de março de 1952, lot 63 D 75, FRUS, 1983, p. 868.

[26] Willard L. Beaulac, «Memorandum of Conversation, by the ambassador in Cuba (Beaulac)», 22 de março de 1952, FRUS, 1983, p. 868.

[27] Fidel Castro Ruz, «Esta vez no se frustrará la Revolución», 1 de janeiro de 1959, Fondo Fidel Castro Ruz, n°, Archivo de la Oficina de Asuntos Históricos del Consejo de Estado (OAH-CE)

[28] John F. Kennedy, «Speech of Senator John F. Kennedy, Cincinnati, Ohio, Democratic Dinner», 6 de outubro de 1960.

[29] Id.

[30] Philip W. Bonsal, Cuba, Castro, and the United States, Pittsburgh, University of Pittsburgh Press, 1971, p. 9.

Salim Lamrani é doutor em Estudos Ibéricos e Latino-americanos da Universidade Paris Sorbonne-Paris IV, professor-titular da Universidade de la Reunión e jornalista, especialista nas relações entre Cuba e Estados Unidos.

Retirado de SOLIDÁRIOS

domingo, 19 de abril de 2015

17/4/1961: Invasão de Playa Girón (Baía dos Porcos)

Com uniforme de general e chapéu de camponês, o presidente de Cuba, Raúl Castro, acompanha desfile militar que comemorou os 50 anos da proclamação do socialismo e a vitória sobre a invasão da Baía dos Porcos, em Havana
Em 2011, com uniforme de general e chapéu de camponês, o presidente de Cuba, Raúl Castro, acompanhou desfile militar que comemorou, em Havana, os 50 anos da proclamação do socialismo e a vitória sobre a invasão de Playa Girón.

No dia 17 de abril de 1961, a agência de notícias UPI divulgou ter recebido uma nota do embaixador argentino em Cuba, Julio Amoedo, sobre uma força invasora que havia desembarcado no sul da ilha de Fidel Castro.
De acordo com um relatório divulgado em Washington em 22 de fevereiro de 1998 pelo Arquivo Nacional de Segurança dos EUA, a operação militar havia começado a ser planejada pela CIA (Agência Central de Inteligência) em agosto de 1959, por ordem do presidente Dwight Eisenhower. A ideia inicial era preparar exilados cubanos para se infiltrarem em Cuba e organizarem uma dissidência anticastrista. Para tanto, a CIA lançou, em março de 1960, seu Programa de Ação Encoberta Contra o Regime de Castro, com um orçamento previsto de US$ 4,4 milhões.
O documento de 150 páginas, escrito em fins de 1960 pelo almirante Lyman Kirkpatrick, revela que, em setembro de 1960, passou a dominar a ideia de um ataque armado. A CIA estava convencida de que poderia derrubar Fidel Castro, da mesma forma como havia deposto o governo reformista de Jacobo Arbenz, na Guatemala, em 1954. A agência de espionagem garantia que o povo cubano, farto de entrar em filas, esperava um sinal de rebelião. O objetivo estratégico dos EUA, no entanto, era conter um alastramento do comunismo na América Latina.

Rebelião interna simulada

Para executar a invasão, exilados cubanos e herdeiros das empresas norte-americanas nacionalizadas pelo governo de Fidel Castro formaram o Exército Cubano de Libertação, com armamentos norte-americanos e bases de treinamento no Panamá e na Guatemala. Para simular uma rebelião interna do exército cubano, os aviões dos EUA envolvidos na invasão foram camuflados com a estrela da força aérea de Cuba.
Atrás da chuva de panfletos e dos bombardeios, cerca de 1.400 homens invadiram os pântanos da praia Girón, conhecida como Baía dos Porcos, no dia 17 de abril de 1961. Três dias depois, eles estavam derrotados. Segundo o governo cubano, 176 pessoas morreram nos combates, mais de 300 ficaram feridas e 50 incapacitadas para toda a vida.

Má execução do plano levou a fracasso

Em 1998, o governo norte-americano admitiu que a operação Baía dos Porcos estivesse condenada ao fracasso desde o começo. A tentativa de derrubar Fidel Castro teria sido "ridícula, trágica ou ambas as coisas". A principal causa do fracasso teria sido sua má execução, e não o fato de o presidente John Kennedy não ter autorizado o apoio da Força Aérea dos EUA aos invasores, como afirmaram durante anos os exilados cubanos e os adversários políticos de Kennedy.
Fidel Castro conversa com prisioneiros da invasão de Playa Girón, em abril de 1961
Retirado de UOL

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Estreante na Cúpula, Cuba tenta atrair empresários



Ministro apresentou "oportunidades de investimentos em Cuba" para empresários na cúpula

Estreante na Cúpula das Américas, Cuba aproveitou a sétima edição do evento - que ocorreu na Cidade do Panamá - para tentar atrair investimentos de grandes empresas e promover as oportunidades econômicas que se abrem com sua reaproximação com os Estados Unidos.
Chefiada pelo ministro cubano do Comércio Exterior e Investimento Estrangeiro (ex-embaixador de Cuba no Brasil), Rodrigo Malmierca, a ofensiva teve como palco a cúpula de empresários que antecedeu o encontro entre chefes de Estado, no sábado.
Em discurso a presidentes de empresas no hotel Riu Plaza Panamá na última quinta-feira (10), Malmiera disse que Cuba vive uma "nova fase" no cenário econômico mundial.
"Nesta nova etapa, ampliamos nossa visão sobre o papel do investimento estrangeiro, reconhecendo-o como um elemento ativo e fundamental para o crescimento de determinados setores e atividades econômicas", afirmou o ministro.
Segundo ele, Cuba precisa de US$ 2,5 bilhões de investimentos estrangeiros para estimular um crescimento "que resulte em desenvolvimento, prosperidade e sustentabilidade para o nosso projeto socialista."
Para atrair esses recursos, ele diz que o Parlamento cubano aprovou recentemente um novo marco regulatório "que oferece garantias e incentivos aos investidores estrangeiros, estabelece regras claras e maior transparência".
O ministro afirmou ainda que delegações de empresários americanos que visitaram Cuba recentemente constataram as possibilidades criadas pela reaproximação com os Estados Unidos.

Turismo

Malmiera falou à frente de uma projeção da praça da Catedral, uma das principais atrações turísticas de Havana. Ele apresentou o turismo como um dos setores mais promissores da economia do país e defendeu que os Estados Unidos ponham fim a "proibições absurdas", como a limitação a viagens de americanos a Cuba.
O governo cubano estima que, com o fim das restrições, mais de 1 milhão de americanos passem a visitar a ilha caribenha anualmente.
Durante a fala do ministro, o salão tinha a maioria de suas centenas de cadeiras ocupadas.
Terminado o discurso, ele recebeu aplausos discretos e, diferentemente de outras autoridades que haviam discursado antes, deixou o palco sem responder a perguntas.
A presença do ministro frustrou alguns empresários presentes. Até a véspera do evento, especulava-se que o presidente Raúl Castro pudesse falar em seu lugar.
Mesmo assim, a mensagem ressoou bem entre o público. Para José Antonio Llorente, sócio-fundador da Llorente & Cuenca - consultoria de comunicação presente em 11 países e que tem entre seus clientes Repsol e Toyota - o discurso foi "muito construtivo".
"Não foi uma fala beligerante, como estávamos acostumados; ele não veio aqui vender a revolução", diz Llorente.

Interesse

Segundo ele, alguns de seus clientes estão muito interessados em fazer negócios em Cuba.
"Poucos mercados no mundo são tão fechados como Cuba, e quando uma companhia já está presente no mundo todo, essa é uma das melhores possibilidades para crescer".
Resta saber, diz ele, se "os fatos darão continuidade às palavras", ou seja, se Cuba de fato facilitará a vida dos investidores.

Delegação cubana espalhou panfletos listando oportunidades de negócio na ilha

Carlos Cerdas, presidente da construtora costa-riquenha Meco, disse ter interesse em investir em Cuba (sua companhia já atua na Colômbia e em boa parte da América Central), mas afirma que analisará as novas condições oferecidas.
Ele se diz cauteloso com as regras fiscais, laborais e para introdução de máquinas em Cuba.
Presidente do Business Council of Latin America (Ceal), Ingo Plöger diz que há dois setores que oferecem oportunidades mais imediatas a investidores estrangeiros: turismo e a indústria de alimentos (Cuba importa boa parte de sua comida).
Outra aposta cubana que pode se mostrar vantajosa a empresários, segundo ele, é o complexo industrial do porto de Mariel. A reforma do porto, financiada pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), foi executada pela empreiteira brasileira Odebrecht.
O Brasil, no entanto, tem tido participação discreta na cúpula dos empresários. Poucas companhias nacionais estavam presentes durante a fala do ministro, e apenas duas foram convidadas a integrar mesas de debates ao longo do evento: a Odebrecht e a empresa de tecnologia Stefanini.

Oportunidades de negócios

Na manhã de quinta-feira, a delegação cubana espalhou pelos corredores do hotel uma série de folhetos e catálogos listando oportunidades de negócio em Cuba.
Em reunião privada após o discurso, Malmierca entregou os catálogos a empresários americanos e representantes da Câmara de Comércio dos Estados Unidos.
Participantes do encontro disseram que ele serviu para que cubanos e americanos trocassem informações sobre o estado das relações entre os países, impulsionadas pelo anúncio da retomada dos laços diplomáticos entre Havana e Washington em dezembro.
Apesar da reaproximação, o principal obstáculo entre os dois países segue em vigor, o bloqueio econômico americano à ilha.
O presidente americano, Barack Obama, já defendeu o fim do bloqueio, mas a medida depende do Congresso, hoje dominado pela oposição.
Em seu discurso aos empresários, Malmierca cobrou os legisladores americanos a derrubar o bloqueio e exortou Obama a usar sua autoridade presidencial para "modificar outros aspectos do bloqueio que não requerem aprovação do Congresso".
Os temas voltaram a ser tratados entre cubanos e americanos até o fim da cúpula. Na noite de quinta-feira, o secretário de Estado americano, John Kerry, se encontrou com o ministro das Relações Exteriores cubano, Bruno Rodriguez, na reunião de mais alto nível entre representantes dos dois países em mais de meio século.
No sábado houve um encontro entre os líderes de Cuba e EUA - Raúl Castro e Barack Obama - durante um intervalo das negociações entre os presidentes dos países que participaram da cúpula.
Retirado (com alterações) de BBC Brasil