sábado, 15 de agosto de 2015

Bandeira dos EUA é hasteada em Havana e Kerry defende fim do bloqueio contra Cuba

'É um momento histórico para novas possibilidades. Estamos confiantes: não somos mais inimigos e rivais, mas vizinhos', diz chefe da diplomacia dos EUA


Primeiro secretário de Estado estadunidense a viajar para Cuba em 70 anos, John Kerry esteve nesta sexta-feira (14/08) na cerimônia de hasteamento da bandeira dos EUA em Havana. O ato simboliza a reabertura da embaixada e o consequente restabelecimento de relações diplomáticas, após 54 anos, entre as duas nações.

EFE

Kerry teve série de encontros nas dez horas em que permaneceu na ilha, antes de voltar para Washington

Em seu discurso, o chefe da diplomacia dos Estados Unidos aproveitou a oportunidade para afirmar que o Executivo é “fortemente favorável ao fim do embargo (bloqueio)” econômico contra a Ilha, mas destacou que isso depende de uma aprovação do Congresso. Apesar disso, reforçou que o presidente de seu país, Barack Obama, está lutando para melhorar outros acordos comerciais e comércios bilaterais nesse intervalo.


"Estamos aqui, porque os nossos líderes [Obama e o chefe de Estado cubano, Raúl Castro] fizeram uma corajosa decisão de não serem prisioneiros do passado”, declarou Kerry. “Mas isso não significa que esqueceremos o passado: como esqueceríamos afinal?”, acrescentou.



Ao longo de seu discurso, ele relembrou momentos-chave das complexas relações entre os dois países, recordando a visita de Fidel Castro aos EUA após o triunfo da Revolução, em 1959, bem como a chamada Crise dos Mísseis, a fracassada invasão da Baía dos Porcos (Playa Girón), entre outros episódios políticos marcantes ao longo da Guerra Fria.  
EFE

Bandeira dos EUA é içada por três veteranos da Marinha que foram responsáveis por retirá-la em 1961

Embora a cerimônia de reabertura da embaixada só tenha sido realizada hoje, a sede diplomática começou a funcionar formalmente em 20 de julho, cerca de sete meses depois do anúncio de Obama e Castro sobre a retomada de relações.


“É maravilhoso estar aqui. É um momento histórico para explorar novas possibilidades. Estamos confiantes e a hora é agora: não somos mais inimigos e rivais, mas vizinhos. E como vizinhos, temos sempre muito a conversar, afirmou Kerry. “Não há nada a temer com os benefícios que teremos quando permitiremos que nossos cidadãos se conheçam melhor”.



Em alguns momentos em seu discurso, o secretário de Estado estadunidense arriscou um espanhol e ainda citou uma frase de efeito de José Martí (1853-1895), líder da independência de Cuba contra os espanhóis: “Como disse José Martí, tudo que divide os homens é um pecado contra a humanidade”, declarou Kerry.

Após o discurso, a bandeira dos EUA foi hasteada ao som do hino nacional estadunidense. Os responsáveis por içá-la foram três veteranos da Marinha, que foram os responsáveis por retirá-la, mais de meio século atrás. “Promessa feita é promessa paga”, disse Kerry aos marinheiros.


Visita a Havana



Kerry chegou às 9h (10h em Brasília) a bordo de um avião do Departamento de Estado e foi recebido pelo encarregado de negócios da embaixada dos EUA em Havana, Jeffrey DeLaurentis, e funcionários da chancelaria cubana.



Durante as dez horas que passou em Havana, Kerry teve primeiro um encontro com seu colega suíço, Didier Burkhalter, convidado para a cerimônia em agradecimento à contribuição da Suíça como Estado protetor para a defesa dos interesses de Washington na Ilha, após a ruptura bilateral e o fechamento das embaixadas em 1961.
EFE/Arquivo

Simpatizantes do restabelecimento diplomático se uniram diante da embaixada cubana em Washington no mês passado

O secretário de Estado ainda se reuniu com o cardeal cubano Jaime Ortega, máxima autoridade católica na Ilha, assim como com o chanceler cubano, Bruno Rodríguez Parilla, com quem deu uma entrevista coletiva. Ele voltou para Washington a noite.


Histórico



Em 20 de julho, a bandeira cubana foi hasteada na embaixada da Ilha em Washington, com a presença do chanceler cubano. A reabertura das sedes diplomáticas é um dos passos fundamentais para a normalização das relações bilaterais, desde o histórico anúncio da reaproximação entre as duas nações, em 17 de dezembro de 2014.



Em 29 de maio de 2015, os EUA retiraram oficialmente a Ilha da lista de países patrocinadores do terrorismo, uma demanda de longa data do governo cubano. A manutenção no rol legitimava a imposição de sanções, como a proibição da venda e exportação de armas, e impedia que o país tivesse acesso aos recursos do Banco Mundial e de outros órgãos internacionais.



Entretanto, em diversas ocasiões, Raúl Castro e outros líderes cubanos destacaram a importância do fim do bloqueio econômico contra a Ilha como exigência fundamental para retomar completamente as relações com Washington.


Patrícia Dichtchekenian | São Paulo - 14/08/2015 - 12h40

Retirado com correções e mudanças de Opera Mundi

PS: Por que dizemos bloqueio e não embargo

As ações levadas a cabo pelo governo dos Estados Unidos contra Cuba ultrapassam o conceito de embargo e amostram o conceito de bloqueio ao perseguir o isolamento, a asfixia e a imobilidade de Cuba, de modo a afogar o povo cubano e fazê-lo desistir em sua decisão de ser livre e soberano. Estes constituem elementos chaves no conceito de bloqueio, que significa cortar, fechar, incomunicar com o exterior para fazer render o país mediante a força e a fome.



Desde a Conferência Naval de Londres, em 1909, é um princípio aceito no direito internacional: "o bloqueio é um ato de guerra", e sendo assim, é só possível seu uso entre os beligerantes. Não existe, por outra parte, norma de direito internacional justificante do chamado "bloqueio pacífico", o qual foi posto em prática pelas potências coloniais do XIX e no início do século passado.

Segundo a definição do Direito Internacional e da própria legislação norte-americana o "embargo" é uma ordem ou proclamação, emitida por um Estado em tempo de guerra, em virtude da qual são colocados os navios mercantes estrangeiros e seus carregamentos, sob o controle do Estado, sem os destinar para uso nenhum em seu proveito.

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